Loren Elliott/Getty Images/AFP
Loren Elliott/Getty Images/AFP

Presidência de Trump inspira onda de livros sobre impeachment

Trabalhos discutem se há razões legais para impedimento do presidente após surgimento de alegações que relacionam envolvimento dos russos na campanha republicana à Casa Branca em 2016

O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2018 | 14h57

NOVA YORK - Mais de 40 anos depois de trabalhar no impeachment de Richard Nixon, a ex-republicana, e agora democrata, Elizabeth Hotzman está de volta à ativa. Desta vez, com o livro Caso a favor do impeachment de Trump (em tradução livre).

“O livro realmente me forçou a pensar nisso”, disse, em entrevista por telefone. Elizabeth, democrata de Nova York, foi integrante do Comitê Judiciário do Congresso em 1974. “Há tanta notícia todo dia sendo jogada para você, que é difícil separar tudo. Quando eu fiz (o livro), ficou claro que há uma base proclamando que o presidente cometeu crimes de responsabilidade e contravenções.”

“Caso a favor do impeachment de Trump” é parte da onda de novos livros e reedições de antigos trabalhos inspirados no atual debate sobre o presidente americano, Donald Trump, e as alegações de conluio com os russos durante a campanha de 2016 - além da demissão do diretor do FBI, James Comey, em maio de 2017, que estava investigando a ligação de Trump com a Rússia.

Enquanto poucos imaginam a expulsão de Trump – seriam precisos ⅔ de votos no Senado –, pesquisas mostram apoio para o impeachment, como a remoção de Nixon no último ano da sua administração. Em agosto deste ano, a pesquisa Suffolk University/USA Today apontou que 44% dos entrevistados disseram que o Congresso deveria seriamente remover Trump do cargo, enquanto 47% se opuseram. Uma pesquisa Harris de março de 1974, lançada cinco meses antes da resignação de Nixon, mostrava 43% de apoio à sua remoção.

O livro de Elizabeth será publicado em novembro pelo selo Hot books, da editora Skyhorse, como resposta ao livro de Alan Dershowitz Caso contra o impeachment de Trump, que a editora lançou no verão americano. Dershowitz, cujo livro apareceu brevemente na lista de bestsellers de não-ficção do New York Times, é um professor aposentado de direito em Harvard (onde foi estudante) e um democrata de longa data que já defendeu Trump em aparições na Fox News e em outros veículos de mídia.

Outros trabalhos recentes sobre o impeachment incluem o livro de Laurence Tribe e Joshua Matz Acabar com uma presidência: o poder do impeachment e o livro de Allan J. Lichtman Caso para impeachment, escrito por liberais críticos a Trump.

Livros dessa temática são um gênero especializado somente porque o próprio impeachment é relativamente raro nos EUA. Andrew Johnson e Bill Clinton são os únicos presidentes que enfrentaram julgamentos no Senado depois que o Congresso votou pelo impeachment, por razões que muitos acadêmicos contestaram. Nenhum deles foi vencido no voto.

Nunca houve um consenso sobre quais os méritos de um impeachment, embora o então republicano Gerald Ford tenha dado a resposta mais realista em 1970: “São crimes passíveis de impeachment todos que a maioria da Câmara julgar dessa forma dado o momento histórico”.

O impeachment de Clinton originou-se de sua mentira sobre o affair que teve com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. O Artigo 2, Seção 4 da Constituição dos Estados Unidos atesta que “o Presidente, Vice-Presidente e todos os funcionários civis serão removidos sob impeachment por convicção de traição, suborno e outros crimes de responsabilidade e contravenções". Para Elizabeth e Dershowitz, o debate ocorre  sobre a definição de “crimes de responsabilidade”. 

Dershowitz diz que “crimes de responsabilidade” significam crimes sérios, aqueles que seriam puníveis para qualquer um sob a lei. Por exemplo, ele não considera a demissão do diretor do FBI Comey por Trump como um crime digno de impeachment porque não há nada ilegal sobre o presidente mudar diretores do FBI, mesmo que sua tentativa tenha sido impedir a investigação sobre a Rússia. / AP

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