AP Photo/Emilio Morenatti
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Presidência vai para Macron, mas é só um adiamento

Desafios do novo líder da França são grandes e se ele não se sair bem nas reformas em seu país e na UE, Le Pen pode voltar fortalecida

Timothy Garton Ash / Especial, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2017 | 05h00
Atualizado 08 Maio 2017 | 14h28

Como alguém que escapou por pouco de um ataque cardíaco, a Europa pode erguer a taça e brindar a vitória de Emmanuel Macron. Mas a taça não está cheia e, se a Europa não mudar de rumo, vai apenas adiar o dia fatídico.

O presidente eleito da França é um brilhante produto da elite nacional, com um claro entendimento dos grandes problemas estruturais franceses, algumas boas ideias de como enfrentá-los, uma equipe política forte e profundo compromisso com a União Europeia. Quando um governo centrista pró-Europa tiver sido formado em Berlim após as eleições presidenciais, haverá a chance de que essas duas nações liderem uma reforma para consolidar a UE. Saboreiem, pois, esses goles restantes de champanhe, pois a taça, na verdade, já foi esvaziada. Agora é hora de tomar um triplo café de realidade. Primeiro gole desse café: mais de um terço dos que votaram no segundo turno escolheu Marine Le Pen. Seria um resultado a se comemorar?

Mas, graças ao superior sistema eleitoral francês e à forte tradição republicana do país, o futuro político da França é melhor que o traçado pelas vitórias de Donald Trump e do Brexit. A realidade eleitoral subjacente, porém, é de certa forma pior. Trump veio do mundo do capitalismo selvagem, não de um partido radical de direita há muito estabelecido. E a maior parte dos 52% que votaram pelo Brexit não estava votando em Nigel Farage. Após o desempenho revoltante, debochado de Marine Le Pen no último debate na TV ninguém mais tinha dúvidas sobre em quem votar. Ela conseguiu que até Farage parecesse quase razoável. Do país que nos deu o exemplo de revolução violenta em 1789, veio-nos agora a personificação da contrarrevolução antiliberal. Le Pen é o modelo escarrado do moderno populista nacionalista. Ela mesma se vangloriou no debate de TV de ser a melhor opção para lidar com este admirável mundo novo - afirmou ser capaz “de falar de Rússia com Putin, de Estados Unidos com Trump, de Grã-Bretanha com Theresa May” (é nauseante ver uma primeira-ministra britânica em tal companhia). Há toda razão para se acreditar que por trás dessa onda de reação populista contra a globalização, liberalização e europeização exista ainda uma forte dose de raiva contida.

Segundo gole de realidade: Macron sabe o que tem de ser feito na França, mas não parece que vá conseguir fazê-lo. É preciso somar aos que votaram em Le Pen os muitos que se abstiveram, incluindo eleitores de esquerda que compararam esse segundo turno a uma escolha entre o cólera e a peste. O presidente eleito não tem a retaguarda de um partido estabelecido, o que torna nebuloso que tipo de maioria vá emergir das próximas eleições legislativas francesas.

Macron já vem sendo chamado de “Renzi 2.0”, uma alusão ao ex-primeiro-ministro italiano aspirante a reformista Matteo Renzi. A grande meta de Macron é reduzir o gasto público de 56% do PIB para - pasmem - 52%. Os obstáculos que enfrentará na França são enormes, de sindicatos poderosos e um setor público inchado a fazendeiros que gostam de bloquear estradas com tratores. Se Macron falhar em reformar a França, o país pode ter em 2022 Marine Le Pen na presidência.

Terceiro gole de café de realidade: é ótimo que Macron também queira reformar a União Europeia, mas isso está fora de seu alcance. Com as conversações sobre o Brexit tornando-se indigestas, a Grã-Bretanha passou de grande aliada da reforma da UE a grande obstáculo. A Itália, com uma dívida pública maior que a da França, um setor bancário frágil e uma política cheia de fraturas, poderá levar à próxima turbulência na zona do euro. As causas profundas da crise dos refugiados ainda não foram atacadas. Hungria e Polônia são governadas por populistas antiliberais.

As propostas de Macron para reforma da zona do euro - política fiscal comum, ministro das Finanças conjunto e conclusão da união bancária - não vão agradar ao eleitorado alemão. E, acima de tudo, ele prometeu “uma Europa que protege”. Como?

Portanto, houve apenas um adiamento. Tudo ainda está para ser feito. A Europa está bebendo no salão do último gole. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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