Presidente afegão pede retirada de tropas da Otan de zonas rurais do país

Afeganistão em crise. Em reação ao massacre de 16 civis no domingo, Karzai solicita ao secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, que forças ocidentais deixem vilarejos; porta-voz do Taleban anuncia fim do diálogo de três meses com Washington

CABUL, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h06

O esforço de guerra dos EUA e de seus aliados da Otan no Afeganistão sofreu ontem dois reveses importantes. Primeiro, o presidente Hamid Karzai, revoltado com o massacre de 16 civis por um sargento americano, no domingo, defendeu a retirada das tropas ocidentais de zonas rurais afegãs. Horas depois, o Taleban anunciou o rompimento das negociações com os EUA, que engatinhavam desde janeiro.

As medidas representam um duro golpe na estratégia americana de "pacificar" o interior do Afeganistão - onde, segundo o Pentágono, estão os principais focos insurgentes - e, ao mesmo tempo, lançar um diálogo capaz de trazer o Taleban para o jogo político-partidário afegão. A Casa Branca diz que o processo de retirada gradual das tropas americanas terminará em 2014, quando será preciso haver um governo em Cabul capaz de impor, sozinho, sua autoridade sobre todo o território.

Por meio de nota, o gabinete de Karzai afirmou que o presidente afegão solicitou ao secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, "que todas as tropas internacionais deixem os vilarejos e permaneçam em suas bases". Panetta chegou anteontem ao Afeganistão e foi alvo de um atentado frustrado, após um intérprete afegão roubar um carro na base da Otan onde o avião do secretário aterrissaria.

Reconciliação. Nos bastidores, autoridades americanas afirmaram que o líder afegão não pediu a Panetta uma retirada imediata da zona rural. Uma fonte disse à Associated Press que há dúvidas sobre se os EUA sairão dessas áreas mesmo no fim de 2013, conforme prevê o plano do presidente Barack Obama. O compromisso com a data foi reforçado na quarta-feira num encontro em Washington entre Obama e o premiê britânico, David Cameron.

A publicação da nota seria uma forma de Karzai tentar aplacar a revolta entre afegãos diante do massacre de 16 civis, incluindo 9 crianças, por um sargento até agora não identificado publicamente.

Um dia depois do massacre, Karzai exigira que o americano fosse submetido a um julgamento público pela Justiça afegã.

Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que, apesar do anúncio do Taleban de que as negociações estão suspensas, os EUA continuam "comprometidos com o processo de reconciliação". Zabiullah Mujahid, porta-voz do grupo islâmico, acusou Washington de não cumprir promessas, fazer novas exigências e disseminar informações falsas sobre um suposto diálogo multilateral.

Segundo Mujahid, havia apenas dois pontos em debate: a abertura de um escritório do Taleban no Catar e um acordo para troca de prisioneiros - incluindo detentos que estão na base de Guantánamo. Ambas as iniciativas estão agora suspensas, disse o porta-voz. / AP e NYT

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