The White House via AP
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Presidente Biden conhecia riscos e superestimou forças afegãs; leia análise 

Assessores do presidente pensaram que teriam o luxo do tempo por causa das avaliações de inteligência que superestimaram as capacidades de um Exército afegão que se desintegrou

David E. Sanger / The New York Times , O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 05h00

Raramente um presidente americano pagou a língua tão rapidamente quanto Joe Biden, que há pouco mais de cinco semanas disse: “Não haverá circunstância em que você veja pessoas sendo levantadas do telhado de uma embaixada dos Estados Unidos no Afeganistão”.

No domingo, a luta para retirar civis americanos e funcionários da embaixada de Cabul desenrolou-se ao vivo pela televisão. Biden entrará para a história, de forma justa ou injusta, como o presidente que presidiu a longa e humilhante ação final do experimento americano no Afeganistão. 

Mesmo muitos dos aliados de Biden – que acreditam que ele tomou a decisão certa para sair de uma guerra que os Estados Unidos não puderam vencer e não era mais de seu interesse nacional – admitem que ele cometeu uma série de erros graves ao executar a retirada. 

Biden conhecia os riscos. Ele sempre observou que assumiu o cargo com mais experiência em política externa do que qualquer presidente na história recente, possivelmente desde Eisenhower. Em reuniões sobre a retirada dos EUA, Biden disse a assessores que era crucial evitar o tipo de cena que rendeu as fotos icônicas de americanos e vietnamitas subindo uma escada até um helicóptero em um telhado perto da embaixada em Saigon, em 1975.

Os assessores de Biden pensaram que teriam o luxo do tempo – talvez 18 meses ou mais –, por causa das avaliações de inteligência que superestimaram as capacidades de um Exército afegão que se desintegrou, muitas vezes antes mesmo de tiros serem disparados. 

Biden recebeu, é claro, uma retirada que já estava em andamento – planejada por Donald Trump no último ano de sua presidência e selada por seu secretário de Estado, Mike Pompeo, que se reuniu com o Taleban. Os republicanos, naturalmente, alardearam as imagens dos americanos sendo retirados. Mas alguns deles tinham memória curta. 

Muitos aplaudiram o presidente George W. Bush quando ele ordenou a invasão do Afeganistão para derrotar a Al-Qaeda. Eles o acompanharam quando ele continuou adicionando objetivos: mandar meninas para a escola, construir um modelo de democracia, repensar os militares afegãos como uma versão em miniatura das forças dos Estados Unidos, mesmo que esse modelo não se encaixasse.

Uma década depois, eles aplaudiram Trump por dizer que a América sairia de guerras invencíveis. No domingo, eles criticaram Biden por levar adiante a estratégia.

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Na verdade, existe uma estratégia, mas não uma que Biden possa vender facilmente em meio às imagens do caos em Cabul. Em sua opinião, anos de reformulação da política externa americana em reação aos ataques do 11 de Setembro deram à China espaço para crescer, a Rússia para ser disruptiva, Irã e Coreia do Norte para se concentrar em suas ambições nucleares. 

Sair do Afeganistão faz parte de um esforço mais amplo para reorientar os principais desafios estratégicos e as novas ameaças, do ciberespaço ao espaço sideral. Mas este fim de semana foi uma prova de que o passado nunca está realmente no passado. Biden pode ser lembrado por seu papel em superestimar a força do Exército afegão e por não se mover rápido o suficiente quando ficou claro que os cenários apresentados a ele estavam errados. 

*É JORNALISTA

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