Korean Central News Agency/Korea News Service via AP
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Presidente chinês é ridicularizado por minúsculo ditador

Teste nuclear foi realizado justamente quando Xi Jinping iniciava reunião dos Brics, que ele usaria para se promover antes do Congresso do Partido Comunista

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 05h00

Estranhas imagens! De um lado as maiores potências do mundo, os países mais ricos, as máquinas de guerra mais letais, submarinos abomináveis, aviões como saídos de filmes de terror e homens (em princípio sábios e responsáveis), chefes de Estado, diplomatas, eruditos, generais, falando o que lhes vem à cabeça, interrompendo o pronunciamento um do outro e coçando a cabeça.

De outro lado, no fim do mundo, em Pyongyang, um bando de indivíduos vestidos de negro dá risadas em torno de um homenzinho de rosto gordo, acariciando com as mãos engenhos mortais. Todos gargalham, mas sobre o que conversam? Mistério. Silêncio. Eles se contentam em emitir comunicados breves e frios. “A Coreia do Norte realizou um novo teste nuclear com uma bomba de hidrogênio que provocou um terremoto de 6,3. O sucesso foi total”.

Horas mais tarde, as estações de observação da região confirmam: “de fato, uma bomba de hidrogênio foi testada pela Coreia do Norte; sua potência é seis vezes maior em relação ao teste precedente”. Claramente, os preparativos para o apocalipse foram concluídos. Ele pode começar a qualquer momento. Ou mais exatamente, quando o gordinho chamado Kim Jong-un desejar.

Mas nós temos Donald Trump. Ele, pelo menos, fala. O problema é que fala demais. E ao mesmo tempo usa uma linguagem “apocalíptica”, ao passo que sua equipe, seus diplomatas e generais emitem pareceres mais brandos, mantendo aberta a via diplomática. E para onde se dirigem? Para a ONU, claro, mas também para a China, a imensa e poderosa China, um país também comunista que mantém um comércio com a Coreia do Norte e respalda Pyongyang.

Mas desde que Kim Jong-un desenvolveu um arsenal nuclear digno de uma grande potência, a China começou a franzir as sobrancelhas, chegando até a ratificar algumas resoluções da ONU contra a Coreia do Norte. A pergunta é esta: os chineses conseguirão chamar os norte-coreanos à razão?

O último teste nuclear de Pyongyang deixou Pequim em fúria. A China “condena vigorosamente o sexto teste nuclear realizado por Pyongyang e exorta a Coreia do Norte a cessar de agravar a situação com ações errôneas que não atendem a seus próprios interesses”.

O mau humor de Pequim chegou ao extremo, pois a Coreia do Norte decidiu inescrupulosamente propor esse novo desafio ao mundo no momento em que tem início em Xiamen, cidade a leste da China, a Cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul); Xi Jinping, que sonha ser visto como um líder respeitado à medida que se aproxima o Congresso do Partido Comunista chinês, em outubro, sente-se desafiado e ridicularizado pelo minúsculo ditador.

A China já adotou algumas medidas severas, aplicando rápida e duramente sanções determinadas pela ONU. Em meados de agosto suspendeu suas importações de ferro, chumbo, e produtos do mar vindos daquele país. Já havia interrompido em maio suas compras de carvão. Mas a Coreia do Norte já está habituada à austeridade e é tão difícil estrangular um país muito pobre quanto um país muito rico. E de qualquer maneira, os norte-coreanos não têm direito ao mau humor; por causa de uma irritação, uma ironia, uma careta, eles correm o risco de se verem, no melhor dos casos, em um campo de reeducação.

É caso de achar que mesmo a China não pode fazer nada para frear o exaltado ditador? Especialistas avaliam que os chineses podem asfixiar o regime de Pyongyang fechando as válvulas do petróleo. Pequim não o fez até agora e ao que parece não o fará.

Por que tal prudência? Se o regime delirante de Pyongyang cair, o que deve ocorrer? Um colapso da Coreia do Norte e em consequência uma reunificação da Península Coreana sob a bandeira da Coreia do Sul, aliada militar dos Estados Unidos. Portanto a China viveria o pesadelo de ter uma fronteira comum não diretamente com os Estados Unidos, mas com seu melhor soldado, a Coreia do Sul.

E a crise não terminou. O que ela nos ensinou? Que esse tirano quase ausente, brincalhão e misterioso “não mente”. Ele faz o que diz. Há anos, seguindo o exemplo do seu pai e do seu avô, ele almeja transformar seu pequeno país (25 milhões de habitante) em uma potência nuclear. E agora a aposta foi ganha.

Aos olhos de Kim esta é a garantia de que os Estados Unidos na poderão derrubá-lo. Para ele, a única proteção de pequenos países contra nações gigantes é possuir uma arma nuclear. Uma nova versão do chamado “equilíbrio do terror” que dominou toda a diplomacia mundial durante a Guerra Fria.

E como a Coreia do Norte foi colocada pelos Estados Unidos entre os países que formam o “eixo do mal”, Kim Jong-un decidiu, já que é um demônio, se lançar em um jogo infernal./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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