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Sob pressão do comando do Exército, Evo renuncia após 13 anos no poder

Presidente da Bolívia deixa cargo após protestos que começaram quando ele foi declarado vencedor de eleição com denúncias de fraude; vice-presidente, presidentes do Senado e da Câmara também renunciam e Congresso decidirá sobre sucessão

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 17h58
Atualizado 11 de novembro de 2019 | 00h44

LA PAZ - Pressionado pelas Forças Armadas e por protestos violentos que deixaram três mortos e ao menos 300 feridos nas últimas quatro semanas, o presidente da Bolívia, Evo Morales, renunciou neste domingo, 10, ao cargo. As manifestações começaram depois que Evo foi declarado vencedor de uma eleição com denúncias de irregularidades, realizada em outubro, para cumprir o seu quarto mandato seguido. 

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Em comunicado na TV, ao lado do vice, Álvaro García Linera, que também deixou o cargo, Evo disse ter sido vítima de um “golpe de Estado” e que deixava o cargo para evitar mais violência contra seu grupo político. “Eu me demiti do cargo de presidente para que não continuem perseguindo os líderes sociais. Não queremos confrontos”, afirmou Evo, ao dizer que pretendia, com seu ato, a “pacificação” e a “volta da paz social” ao país. 

Antes da renúncia, as casas do presidente da Câmara, Víctor Borda, do ministro de Minas, Cesar Navarro, e da irmã de Evo, Esther Morales, foram incendiadas. Depois dos ataques, Borda e Navarro anunciaram que também estavam deixando os cargos. Dois governadores aliados de Evo também tiveram as casas incendiadas. No seu pronunciamento, o presidente boliviano atacou a missão de auditoria eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que anunciou que detectou irregularidades na votação de outubro. Evo afirmou que a organização adotou uma “decisão política” e não técnica. 

“A comissão de auditoria da OEA tomou uma decisão política exigindo novas eleições na Bolívia”, disse o presidente na televisão, logo após anunciar sua renúncia ao país, depois de quase 14 anos no poder. “Alguns técnicos da OEA estão a serviço de grupos de poder.”

A Constituição da Bolívia, aprovada em 2009, prevê que, em caso de vacância dos cargos de presidente e vice, o chefe do Senado deve assumir a vaga. Caso não possa, o cargo é para ser entregue ao presidente da Câmara, que deve convocar novas eleições. No entanto, os mandatários das duas casas legislativas, a senadora Adriana Salvatierra e deputado Víctor Borda, renunciaram.

De acordo com TVs locais, os congressistas que se mantiverem no cargo devem se reunir em 48 horas para decidir o que fazer, pois a Constituição não prevê nenhuma diretriz. “A responsabilidade de regulamentar a condução transitória do Estado está com os membros do Congresso”, disse Adriana, em entrevista ao canal boliviano ATB. Como consequência da queda de Evo, María Eugenia Choque Quispe, que presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)da Bolívia, foi presa acusada de fraude.

Raúl Madrid, professor de governo e política latino-americana da Universidade do Texas, em Austin, e que estuda a Bolívia, disse que Evo se sentiu “indispensável”. “Acho que ele se vê como o salvador da Bolívia, como um representante do povo marginalizado da Bolívia, especialmente dos indígenas”, disse.  Madrid afirmou que, se Evo deixasse o cargo após seu segundo ou terceiro mandato, teria deixado um legado louvável. “Esses líderes populistas que tentam manter o poder a todo custo acabam minando seu legado, e as pessoas os lembram como ditadores ou pretensos ditadores”, afirmou Madrid. 

Após a renúncia, as cidades de La Paz, El Alto e Cochabamba registraram à noite incêndios, saques e ataques a residências, incluindo a do próprio ex-governante. Muitos bolivianos pediram ajuda à Polícia e às Forças Armadas por meio das redes sociais. 

Oposição

Carlos Mesa, candidato derrotado da eleição de outubro e que governou o país entre 2003 e 2005, comemorou. “À Bolívia, ao seu povo, aos jovens, às mulheres, ao heroísmo da resistência pacífica. Nunca esquecerei esse dia único. O fim da tirania”, escreveu Mesa no Twitter.

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O político opositor afirmou que os partidos do país “devem se unir e organizar uma nova votação”. O líder cívico da oposição, Luis Fernando Camacho, que liderou a onda e contestação ao presidente boliviano nas últimas semanas, não havia se pronunciado até o fim da noite de domingo.

O dia caótico na política boliviana começou com um comunicado da Secretaria-Geral da OEA que recomendava a anulação das eleições de outubro e a realização de nova votação. Evo, então, foi para TV para anunciar que convocaria novas eleições gerais. Em breve pronunciamento durante a manhã, ele também informou que trocaria os magistrados do TSE. Na sequência, o presidente começou a ser informado sobre ataques contra seus apoiadores e a perder o apoio de suas forças de segurança. Os primeiros a desertar, já na noite de sábado, 9, foram policiais das cidades de Cochabamba, Sucre e Santa Cruz. Aquartelados, eles avisaram que não iriam combater os protestos populares. 

Foi então que o comandante-chefe das Forças Armadas e da Polícia da Bolívia, general Williams Kaliman, fez um pedido, durante uma entrevista, para que Evo renunciasse - iniciativa acompanhada também pelo comandante-geral da polícia boliviana, general Vladimir Yuri Calderón. Sem apoio do Exército, da polícia e com protestos crescendo em todo o país, a renúncia de Evo veio poucas horas depois. / EFE, AFP, AP, REUTERS e NYT

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