SAUL LOEB/AFP
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Presidente da Câmara diz que Trump é ameaça contínua à segurança dos EUA

Em discurso antes de votação de acusações formais que podem levar ao impeachment do presidente americano, Nancy Pelosi afirma que o republicano violou a Constituição e ameaça integridade das eleições do país

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 17h27

WASHINGTON - A presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, qualificou o presidente Donald Trump como uma ameaça contínua à democracia americana e a Casa, radicalmente dividida, se envolveu em um debate sobre o impeachment antes da votação histórica sobre duas acusações de abuso de poder e de obstrução do Congresso contra o republicano.

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Controlada pelos democratas, a Câmara iniciou um debate planejado para durar seis horas em que tratará dos dois artigos de impeachment - ou acusações formais - decorrentes das ações de Trump em relação à Ucrânia, e cujo tempo será fracionado igualmente entre os dois partidos sem direito a emendas.

Trump pode se tornar o terceiro presidente americano a ser impedido na Câmara. Antes deles, sofreram a medida Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998. Richard Nixon renunciou em 1974 antes de o Congresso votar as acusações contra ele.

“Hoje estamos aqui para defender a democracia para o povo”, disse Pelosi, a democrata mais graduada do Congresso, em um discurso no plenário da Câmara depois de ler o juramento de lealdade, o que lhe rendeu aplausos de parlamentares de seu partido.

Enquanto o debate prosseguia, Trump usou o Twitter para rotular os procedimentos a cargo dos democratas como “uma agressão à América” e ao seu partido.

Em uma série de discursos no plenário da Câmara, republicanos defenderam o presidente e acusaram os democratas de tentarem depô-lo usando um processo injusto e manipulado para anular os resultados da eleição de 2016.

Votações separadas de cada uma das acusações devem ocorrer no início da noite e seguir os alinhamentos partidários - democratas a favor e republicanos contra.

“Se não agirmos agora, estaríamos negligenciando nossa função. É trágico que as ações irresponsáveis do presidente tornem o impeachment necessário”, acrescentou Pelosi.

“Ele não nos deu escolha. O que estamos debatendo hoje é o fato estabelecido de que o presidente violou a Constituição. É um fato que o presidente é uma ameaça contínua à nossa segurança nacional e à integridade de nossas eleições - a  base de nossa democracia”, disse a presidente da Câmara.

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Os democratas Bill Clinton, em 1998, e Andrew Johnson, em 1868 foram absolvidos pelo Senado; em 1974, Nixon renunciou antes da votação

Depois de Pelosi, o deputado Doug Collins, o republicano mais graduado da Comissão Judiciária da Câmara, disse: “Este é um impeachment com base na suposição. Isto também é basicamente um impeachment testado em pesquisas sobre o que realmente convence o povo americano... Justo é que não é. Sobre a verdade é que não é.” 

Carta de Trump

Em uma carta de mais de cinco páginas em tom raivoso divulgada na terça-feira, Trump disse à Pelosi que "a história a julgará duramente". Relembrando um famoso erro judicial do século 17, ele garantiu que teve menos direitos do que "aqueles acusados nos julgamentos das Bruxas de Salem".

Além disso, em declarações a jornalistas na Casa Branca, Trump voltou a rejeitar as acusações. "É uma farsa total", afirmou. Ao ser questionado sobre se tem alguma responsabilidade nesta crise, limitou-se a responder que "nenhuma".

Na carta, acusou Pelosi de ser culpada. "É você que interfere nas eleições dos Estados Unidos. É você que mina a democracia americana. É você que obstrui a Justiça. É você que traz dor e sofrimento para nossa república, para seu benefício próprio - pessoal, político e partidário", escreveu.

"Isso não é nada mais do que um golpe de Estado ilegal e partidário", insistiu Trump.

Caso ucraniano

Menos de três meses após a eclosão do escândalo ucraniano, a Câmara dos Deputados, votará para decidir se acusa Trump de "abuso de poder" e "obstrução do Congresso".

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A primeira acusação diz respeito ao pedido feito por Trump à Ucrânia para que investigasse seu possível adversário eleitoral em 2020, o ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden. Em troca, Trump daria uma crucial ajuda militar para o país que enfrenta uma guerra com separatistas pró-russos.

A segunda acusação se refere à tentativa de bloquear os esforços dos legisladores para investigar as ações do presidente republicano. Tudo indica que os legisladores votarão de forma partidária, refletindo a profunda divisão da opinião pública.

De acordo com uma pesquisa CNN/SSR, 45% dos americanos querem que Trump seja afastado do cargo (um porcentual que sobe para 77% entre os eleitores democratas), enquanto 47% são contra.

Um grupo de parlamentares democratas moderados, eleitos em circunscrições eleitorais ligadas a Trump, disse que apoiará o julgamento do presidente, mesmo correndo o risco de perder eleitores.

"Meus anos de serviço no Exército me ensinaram a colocar nosso país em primeiro lugar, não a política", declarou Mikie Sherrill, congressista por Nova Jersey.

"Sei que minha decisão vai incomodar algumas pessoas, mas fui escolhido para fazer a coisa certa, não a politicamente segura", acrescentou Anthony Brindisi, representante de Nova York.

Julgamento no Senado

O julgamento de Trump no Senado provavelmente acontecerá em janeiro. Por enquanto, nas condições políticas atuais, a previsão é de que o presidente seja absolvido na Câmara Alta: seriam necessários pelo menos 67 votos para afastá-lo do cargo, e os republicanos ocupam 53 dos 100 assentos.

O líder republicano na Casa, Mitch McConnell, declarou na terça que "a investigação apressada" dos democratas da Câmara, visando à destituição do presidente, é um fracasso e rejeitou a exigência democrata de convocar novas testemunhas.

"Não é tarefa do Senado procurar desesperadamente maneiras de condenar (o presidente). Isso dificilmente seria uma Justiça imparcial", criticou McConnell.

Disputa em 2020

Uma vez terminado o julgamento, republicanos e democratas mergulharão novamente na campanha para as eleições presidenciais de novembro de 2020, relegadas a segundo plano neste último trimestre.

Trump está convencido de que este episódio o beneficiará. Em um tuíte, ele observou que uma pesquisa recente do jornal "USA Today" faz dele um vencedor contra todos os possíveis candidatos democratas. / REUTERS, AFP e EFE

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