EFE/José Jácome
EFE/José Jácome

Presidente da Colômbia espera que EUA retirem as Farc da lista de terroristas após acordo

Para Juan Manuel Santos, Washington deve tomar medida - e também suspender ordens de prisão contra líderes guerrilheiros - 'o mais rápido possível' depois da assinatura do acordo

O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2016 | 18h08

BOGOTÁ - O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, espera que os Estados Unidos retirem as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) da lista de grupos terroristas e suspenda as ordens de captura por narcotráfico contra os comandantes da guerrilha depois que o acordo de paz for assinado.

Dias antes de viajar para os EUA, onde se encontrará na Casa Branca com o presidente Barack Obama, Santos destacou na quinta-feira a importância de Washington nos mais de três anos de negociações de paz com os rebeldes. No dia 4, ele o Obama se encontrarão para celebrar os 15 anos do Plano Colômbia, por meio do qual Washington aportou mais de US$ 10 bilhões em ajuda militar para Bogotá combater o tráfico.

O encontro ocorrerá em um momento crucial do diálogo de paz entre o governo colombiano e as Farc: os dois lados já disseram que entraram em uma fase sem volta das negociações e espera-se que até março possam anunciar o acordo final que encerraria mais de meio século de combates e derramamento de sangue.

Para o líder colombiano, se o acordo for assinado o Departamento de Estado dos EUA deveria deixar de considerar o grupo insurgente como terrorista e retirá-lo da lista - no qual foi incluído em 1997 - que inclui organizações como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. As Farc, que como parte do diálogo de paz deixaram de usar o sequestro como uma ferramenta e declararam trégua unilateral pedem que essa medida seja tomada o mais rápido possível.

"Se assinarem é porque teremos uma agenda e as Farc terão se comprometido a depor as armas e fazer a transição para a vida legalizada. Por isso, eu diria que espero que (o grupo) seja removido da lista de terroristas", disse Santos. No mesmo dia da declaração do presidente colombiano, as Farc pediram em Bruxelas que a União Europeia retire o grupo de uma lista similar a elaborada pelos americanos.

Questionado sobre quanto tempo deveria se passar para que as Farc sejam retiradas da lista - e considerando que os paramilitares tiveram que esperar seis anos para terem esse benefício depois de se desarmarem por completo -, Santos disse que "quantos antes melhor".

O presidente disse também esperar que os EUA sigam a iniciativa colombiana e suspendam as ordens de prisão contra os dirigentes do grupo guerrilheiro acusados de narcotráfico, grande parte dos quais participam das negociações em Havana.

"Qualquer esforço dos Estados Unidos que permita que nós apliquemos os termos alcançados no acordo sobre justiça transicional, por exemplo com a suspensão das ordens de prisão, nos ajudaria enormemente", disse o líder colombiano.

Em 2006, Washington acusou 50 líderes das Farc de serem responsáveis pelo fornecimento de mais de 50% da cocaína do mundo, algo que Santos considera exagerado. O presidente colombiano destacou também que dentre os compromissos já acertados entre as partes está o que prevê o abandono por parte das Farc de relação do grupo com o narcotráfico, além da ajuda para que o governo elimine cultivos da folha de coca.

Para o presidente colombiano, o acordo de paz permitirá romper com o "circulo vicioso" que existe atualmente e fez da Colômbia o principal produtor mundial de cocaína. Ele também comparou o lucro obtido pelas Farc com o tráfico de drogas com a estratégia usada pelo Exército Republicano Irlandês (IRA) em sua guerra com a Grã-Bretanha.

"O IRA se financiou roubando bancos e a guerrilha com o tráfico de drogas", disse o presidente, que advertiu sobre as consequências de as Farc não cumprirem sua parte no acordo. "Vamos ser muito claros: se não cumprirem (os termos do pacto), serão extraditados."

Quando estiver nos Estados Unidos, além do encontro com Obama, Santos se reunirá com líderes republicanos, incluindo alguns que replicaram críticas feitas por setores conservadores da Colômbia e acusam o presidente de estar afrouxando a luta contra as drogas e ser leniente em excesso com os rebeldes responsáveis por numerosas atrocidades.

"A Colômbia está em um momento de inflexão", disse Santos. "Se recebermos a ajuda que necessitamos, que estamos em uma situação econômica difícil - como toda a América Latina -, poderemos aproveitar desse novo momento."

Europa. O chefe negociador das Farc, Luciano Marín Arango, conhecido como "Ivan Márquez", pediu na quinta-feira à União Europeia que retire o mais rápido possível o grupo de sua lista de organizações terroristas, algo que poderia ajudar no processo de paz colombiano.

"O mais justo e consequente é tirar as Farc da lista de organizações terroristas, com a mesma rapidez com a qual fomos incluídos", disse o negociador desse grupo para deputados europeus durante uma videoconferência.

Márquez opinou que sair desse lista eliminaria "um obstáculo" para a normalização da situação no país e "facilitaria" o processo de reincorporação dos antigos combatentes à vida civil. As Farc figuram desde junho de 2002 na lista europeia de organizações terroristas.

O chefe negociador das Farc agradeceu o apoio da UE ao processo de paz e em particular, o anúncio da criação de um fundo fiduciário para apoiar um futuro acordo entre o governo colombiano e as Farc. "Cumprimentamos e agradecemos esta solução solidária", disse Márquez. / AP e EFE

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