REUTERS/Carlo Allegri
REUTERS/Carlo Allegri

Presidente da Colômbia pedirá em cúpula da ONU mudanças no combate às drogas

Juan Manuel Santos participará na quarta-feira de sessão especial da Assembleia-Geral das Nações Unidas sobre o tema; líder diz que Farc não teriam resistido se cocaína tivesse sido legalizada 

O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 17h25

BOGOTÁ - O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, afirmou na segunda-feira  18 que o mundo deve repensar a guerra contra as drogas porque a estratégia atual não teve resultados e a cúpula sobre o tema que começa nesta terça-feira, 19, na ONU é uma oportunidade para iniciar essa mudança. "Dissemos que o mundo está há 40 anos ou mais em uma guerra, uma guerra que não se ganhou. Consequentemente é preciso repensar como travar essa guerra com mais efetividade, e a ONU tem uma oportunidade de avançar nessa direção".

O presidente colombiano viaja nesta quarta-feira a Nova York para participar da Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre Drogas (UNGASS, na sigla em inglês), na qual defenderá uma mudança de tática. Santos lembrou que, desde 2011, seu governo insiste na necessidade de que a ONU " dê mais flexibilidade aos países" para adaptarem a luta a suas próprias circunstâncias e pede que a Convenção de Direitos Humanos da ONU seja o eixo de uma nova guerra contra as drogas, com um enfoque de saúde pública.

"Se a ONU adotou a Convenção de Direitos Humanos como o pilar de sua política, como a coluna vertebral, deve ser para que as demais convenções, como por exemplo a das drogas, tenham como prioridade também a defesa dos direitos humanos ", ressaltou. 

Santos lembrou que "isso se choca com o que está acontecendo atualmente", pois há países onde o narcotráfico é castigado com pena de morte ou não se permite que se dê um tratamento de saúde pública aos usuários. "Estamos propondo que se adote uma política muito mais de acordo com o que a ONU vem defendendo nos últimos tempos."

O presidente disse, além disso, que é necessário "concentrar os esforços nos elos mais perigosos da cadeia (do narcotráfico) e dar alternativas diferentes aos mais frágeis", ou seja os produtores. Como exemplo, Santos declarou que não há argumentos para dizer a um camponês colombiano que planta maconha "que ele vai para a prisão, enquanto um consumidor no Estado do Colorado (Estados Unidos) pode fumá-la e é totalmente legal".

Com base nesse princípio de responsabilidade compartilhada, Santos defendeu que a luta contra as drogas ponha mais ênfase no consumo, e não só na produção, pois há economistas que sustentam a tese que o esforço "concentrado em lutar pelo lado da demanda é muito mais efetivo, eficiente, que no lado da oferta".

Santos destacou também que o narcotráfico não só alimentou os cartéis das drogas, mas também guerrilhas como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que aumentaram seu poder nos anos 80 e 90 graças ao dinheiro obtido com os cultivos ilícitos e a produção de cocaína.

Legalização. Ao ser perguntado se acredita que as FARC teriam resistido tanto tempo se a cocaína tivesse sido legalizada, o presidente colombiano opinou que não. "Essa é uma pergunta muito capciosa que me faz pensar muitíssimo, porque, de repente, a resposta é não, as FARC não teriam resistido", opinou.

Quanto à legalização das drogas em médio e longo prazo, Santos considerou que pode ser viável se fizer parte de uma política global e não de um só país ou de poucos. "Não considero possível que os países façam isso individualmente."

Apesar de vários ex-presidentes, principalmente latino-americanos, se mostrarem favoráveis à legalização das drogas como uma alternativa para combatê-las, Santos é um dos poucos que não teme falar dessa possibilidade. "Eu quero que sejamos mais efetivos porque estou lutando contra esse flagelo há dez anos, e acho que pouca gente no mundo foi tão efetiva nessa luta. No entanto, digo que às vezes parece que estamos em uma bicicleta estática, na qual pedalamos e pedalamos, fazemos muitos esforços e o negócio (do narcotráfico) segue", comentou.

Nesse sentido, o presidente colombiano acrescentou que o país, apesar de ter sido "o que mais sacrifícios fez, que mais custos pagou no mundo inteiro nessa guerra contra as drogas, continua sendo o primeiro produtor e exportador de cocaína do mundo." /EFE

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