Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via Reuters
Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via Reuters

Presidente da Finlândia conhece Putin muito bem - e teme pela Ucrânia

O presidente finlandês, Sauli Niinisto, constituiu um papel vital como intérprete entre Oriente e Ocidente, e ele não está nada otimista com as perspectivas para a paz

Jason Horowitz - The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 15h00

HELSINQUE — Conforme o temor de uma nova ameaça russa à Ucrânia cresceu, o chefe de Estado europeu com a mais longa e profunda experiência com Vladimir Putin fez chamados e deu conselhos ao presidente francês, Emmanuel Macron, e outros líderes mundiais desesperados por clareza a respeito de seu difícil vizinho ao leste. 

“'O que você pensa a respeito disso? É isto ou aquilo?' É respondendo questões assim que tento ser útil”, afirmou Sauli Niinisto, o presidente da Finlândia, iluminado pela luz inclemente refletida pela neve e a baía congelada sobre a residência presidencial. “Eles sabem que eu conheço Putin”, acrescentou ele. “E porque isso é uma via de mão dupla, Putin às vezes me fala, ‘Por que você não diz isto ou aquilo para seus seus amigos ocidentais?’”  

Estimados 130 mil soldados russos estão posicionados ao norte, ao leste e ao sul das fronteiras da Ucrânia. 

Niinisto, de 73 anos, afirmou que seu papel não se resume ao de um jogador nórdico, intermediando mensagens entre Oriente e Ocidente, mas de um intérprete fronteiriço, explicando a ambos os lados o pensamento do outro. A saída da política de Angela Merkel, que durante os anos como chanceler alemã liderou as negociações da Europa com Putin, tornou vital o papel de Niinisto, ainda que menor, especialmente enquanto os tambores da guerra retumbam com cada vez mais intensidade. 

Niinisto não está nada otimista. Ele afirmou que, antes e depois de sua última conversa longa com Putin, no mês passado, notou uma mudança no russo. “Seu estado de espírito, sua decisão, sua assertividade — estão claramente distintos”, afirmou o presidente finlandês. Segundo ele, Putin sentiu que tinha de aproveitar “o ímpeto que possui agora”. 

Para Niinisto, é difícil imaginar que as coisas voltem a ser como antes. Os lados que se opõem contestam o acordo de Minsk, que os russos insistiram em honrar. As opções restantes se reduziram à Rússia pressionando a Europa e forçando demandas aos Estados Unidos para o futuro próximo — ou, como ele disse, “a guerra”. 

A narrativa franca de Niinisto fez dele, no quinto ano de seu segundo mandato de seis anos, extremamente popular na Finlândia. Ele é comparado por alguns a Urho Kekkonen, que assumiu o poder em 1956 e governou a Finlândia por 25 anos, durante o assim chamado período de finlandização da Guerra Fria. 

“Amamos ele”, afirmou o comerciante Juha Eriksson, enquanto vendia peles de rena, carne de urso enlatada e sanduíches de salmão defumado num mercado próximo à baía crivada de lascas de gelo. “Minha geração teve Kekkonen, e ele foi o pai da pátria. E Niinisto é meio assim, também. É uma pena que logo ele tenha de deixar o cargo.” 

Niinisto minimiza sua aprovação próxima de 90%, qualificando-a como similar à de seus antecessores, e rejeita a fala hiperbólica sobre ser uma espécie de conselheiro de Putin. “É um exagero que eu, de alguma maneira, saiba mais a respeito de Putin ou sobre o que ele pensa”, afirmou ele. Niinisto está claramente cauteloso a respeito de magoar um relacionamento que ele nutriu, ao longo de uma década, por meio de muitas reuniões, incontáveis telefonemas e até uma partida de hóquei no gelo. Questionado sobre quem é o melhor no esporte, o finlandês respondeu diplomaticamente, “Joguei minha vida inteira”. 

Mas Niinisto apontou alguns benefícios concretos. Ele contou que, depois de obter apoio de Merkel, em 2020, pediu a Putin que permitisse a Alexei Navalni, o líder opositor que acusa agentes russos de tê-lo envenenado, ser transportado de avião para receber tratamento médico na Alemanha. Posteriormente, o escritório de Navalni agradeceu o presidente finlandês.

“Niinisto é uma boa pessoa para telefonar quando você quer entender o que está acontecendo no cocoruto nordeste da Europa, especialmente se você quiser entender o pensamento do presidente Putin”, afirmou Alexander Stubb, ex-primeiro-ministro e ex-ministro de Relações Exteriores finlandês, que acompanhou o presidente finlandês em reuniões com seu homólogo russo. 

“Ele é um mestre em política de potências e em encontrar o equilíbrio correto.” O fato de Stubb ser tão efusivo a respeito de Niinisto diz algo sobre a sobrepujante popularidade do presidente da Finlândia e seu domínio político no país, enquanto tensões entre os dois terem sido amplamente discutidas pelo público daqui. 

Niinisto deriva seu poder de uma crítica convenção de segurança nacional da Constituição determinando que a política externa é “liderada pelo presidente da república em cooperação com o governo”.   

“É o presidente — ponto — que lidera a cooperação”, explicou Niinisto, deixando claro quem vem primeiro. 

Autoridades finlandesas afirmam que Niinisto verte sua modéstia diplomática privadamente e é conhecido pela longa memória política, por seu estilo incisivo e seu espírito de missão. “Fui por vezes criticado por recordar demais da minha antiga história como ministro das Finanças”, afirmou ele sorrindo.   

Política doméstica é território da primeira-ministra, Sanna Marin, de 36 anos, que trabalhou como caixa e atuou como ativista defensora do meio ambiente antes de ascender ao cargo — e enfureceu Niinisto ao afirmar à Reuters, em janeiro, que será “muito improvável” que a Finlândia se inscreva para adesão à Otan enquanto ela estiver na função. 

“Ainda digo apenas que não vejo danos maiores”, afirmou Niinisto, contendo-se visivelmente. Questionado a respeito da declaração dela ter sido construtiva, ele afirmou, “Apenas repito, nenhum dano”.  

A opção da Otan pesava na Finlândia como ferramenta estratégica para lidar com Putin. Em um país abundante em ditados a respeito a natureza incorrigível dos russos (“Um russo é um russo até frito na manteiga.”) Niinisto lembrou de um sobre soldados russos, dizendo, “O cossaco leva tudo que não estiver pregado”. 

Apesar de lembrar que Putin disse certa vez que o vizinho amigo finlandês tornaria-se um “soldado inimigo” se aderisse à Otan, Niinisto, que se gaba da impressionante artilharia finlandesa, sustenta com frequência o direito da Finlândia de tornar-se membro da aliança. “Disse isso também a Putin, muito claramente”, afirmou ele. 

Niinisto também conversou diretamente com outros líderes que sugeriu serem ameaças à democracia. Em uma memorável conferência de imprensa conjunta, na Casa Branca, em 2019, ele olhou diretamente para o ex-presidente Donald Trump e disse, “Você tem uma grande democracia. Mantenha-a funcionando”. 

“Ele não respeita instituições”, afirmou Niinisto sobre Trump durante a entrevista, seja a União Europeia ou a Otan. E os finlandeses consideraram a insurreição no edifício do Capitólio dos EUA um sinal preocupante para a democracia americana. 

Mas ao lidar com Putin, Niinisto tentou dar a Trump algumas dicas anteriormente a uma cúpula em Helsinque, em 2018, “atrás daquela parede, de fato”, afirmou, apontando para o outro lado do gabinete. Antes de um solícito desempenho em público que foi amplamente considerado desastroso para Trump, Niinisto disse ao americano que Putin “respeita quem resiste e contra-ataca”. 

Niinisto afirmou que disse a Joe Biden algo similar antes da chamada entre o presidente americano e Putin a respeito da Ucrânia, no mês passado. 

Além da dificuldade em lidar com Putin, Biden e Niinisto compartilham uma tragédia. Em 1995, a primeira mulher de Niinisto morreu num acidente de carro, deixando-o só para criar os dois filhos pequenos.

“Eu conheço a história dele”, afirmou Niinisto em voz baixa, acrescentando que poderá falar disso com o presidente americano, que também perdeu a mulher num acidente de carro quando era um jovem político, “algum dia, talvez, se tiver a possibilidade de reunir-me com ele mais delongadamente”.  

Niinisto também superou a perda. Em 2009, quando era presidente do Parlamento, ele se casou com Jenni Haukio, então aos 31 anos e diretora de comunicação do Partido da Coalizão Nacional, atualmente poeta. O casal tem um filho de 4 anos, e os cachorros da família viraram mascotes nacionais adorados por todos. 

Antes do casal se conhecer, Niinisto namorou Tanja Karpela, ex-miss Finlândia que era parlamentar de um partido de oposição. Eles romperam em 2004, e Karpela atualmente treina cães farejadores que rastreiam esquilos voadores da Sibéria.

O ano de seu rompimento coincidiu com o devastador tsunami na Tailândia, onde Niinisto estava de férias com os filhos e quase foi arrastado. Ele sobreviveu escalando um poste de eletricidade, onde permaneceu por mais de uma hora. O evento traumático ainda parece abalar o sereno presidente, que perdeu cem conterrâneos naquele dia. “Pessoas que se sentaram ao meu lado no café da manhã”, afirmou ele. 

Aquilo foi uma catástrofe natural. Agora Niinisto espera que sua relação com Putin e as “pequenas manobras” que isso poderia criar ajudem a evitar uma catástrofe artificial na Ucrânia. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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