EFE/EPA/TURKISH PRESIDENTAL PRESS OFFICE
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Presidente da Turquia deveria ser derrotado 

Caso Recep Tayyip Erdogan vença a eleição de hoje, os eleitores turcos poderiam pelo menos eleger um Parlamento que possa controlá-lo 

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

O que um presidente precisa fazer para destruir a confiança dos turcos? Desvalorizar a moeda, envenenar o relacionamento com Europa e EUA, prender milhares de inocentes, amordaçar a imprensa, reacender uma guerra civil e brincar com a Constituição para obter os poderes de um sultão certamente deveria ser suficiente. Recep Tayyip Erdogan fez tudo isso e muito mais nos últimos anos. Quando os eleitores votarem nas eleições de hoje deveriam mostrar-lhe a porta de saída de seu vasto palácio novo em Ancara.

Havia muito o que admirar em Erdogan quando seu partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) assumiu o poder em 2002. Ele mostrou que um partido islâmico poderia governar com moderação – as mulheres na Turquia são livres para usar o que quiserem. A economia floresceu. O PIB duplicou e os resultados, em termos de estradas, pontes e, acima de tudo, habitações abundantes e baratas, são evidentes para todos. O Exército foi domado, os direitos da língua curda foram reconhecidos e as negociações para entrar na UE recomeçaram.

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Mas o poder deteriora os líderes. À medida em que se torna mais autocrático, Erdogan está revertendo suas próprias conquistas. As taxas de juros artificialmente baixas fizeram a lira cair (queda de 55% nos últimos quatro anos), levaram a inflação a dois dígitos e obrigaram as empresas a se sobrecarregarem com dívidas. Após um período de crescimento vertiginoso, um pouso forçado parece iminente. A guerra contra os curdos recomeçou, tanto no sudeste do país como na fronteira com a Síria. Enquanto as relações com a Otan e a UE se deterioram, Erdogan inicia uma aliança de conveniência com a Rússia.

A brutal tentativa de golpe de julho de 2016 mereceu fracassar. Mas a vingança de Erdogan tem sido indiscriminada e desproporcional. Cerca de 110 mil pessoas perderam seus empregos no Exército, nas escolas e na burocracia; mais de 50 mil pessoas foram presas, das quais 35 mil foram condenadas. Aproveitando-se de um clima de medo e do estado de emergência, Erdogan pressionou por uma reforma constitucional que transformou a Turquia de parlamentarista em presidencialista, reduzindo o poder do Legislativo. Tais mudanças foram aprovadas por um referendo em 2017, em meio a alegações de trapaça.

Por todas estas razões, Erdogan deveria partir. Quem deve substituí-lo é menos óbvio. Das alternativas, Selahattin Demirtas, o líder do HDP, o principal partido curdo, é impressionante, mas não tem chance de vencer – não só por ser curdo em um país que desconfia deles, mas também porque sua campanha está sendo conduzida por ele atrás das grades – ele foi preso por falsas acusações de terrorismo. 

Em resumo, Muharrem Ince, ex-professor que hoje representa o antigo partido de Kemal Ataturk, o CHP, é a melhor opção. Apesar dos instintos estatizantes do CHP, Ince é um candidato forte e decente. Ele fez questão de visitar Demirtas na prisão; como filho de muçulmanos praticantes, ele poderia conquistar alguns eleitores do AKP.

As pesquisas sugerem que Ince terá dificuldades em vencer, mesmo que possa forçar Erdogan a um segundo turno, em 8 de julho. Isso torna a votação parlamentar especialmente importante. Há uma boa chance de o AKP (e um aliado menor) perder a maioria. Para que isso aconteça, no entanto, o HDP terá de conseguir um mínimo de 10% ou não terá assentos. Os eleitores devem optar por isso sempre que puderem. 

Mesmo que Erdogan seja reeleito, um Parlamento controlado pela oposição poderá se manifestar contra seus abusos, bloquear seus decretos e talvez reverter suas mudanças constitucionais. Quaisquer freios e contrapesos são melhores que nenhum. Para parar o sultão, a Turquia precisa de uma oposição eficaz. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 


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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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