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Ucrânia reage à captura russa de 3 navios no Mar Negro

Caso aprovado pedido de lei marcial, o direito de reunião e de movimento serão restringidos, assim como a liberdade de imprensa

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2018 | 12h48
Atualizado 26 de novembro de 2018 | 19h04

KIEV -  O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, pediu nesta segunda-feira, 26,  ao Parlamento poderes especiais para restringir liberdade de reunião, impor toque de recolher e limitar a imprensa em meio a uma escalada de tensão com a Rússia, que levou Kiev a mobilizar suas tropas. A crise foi provocada pela captura, no domingo, de três navios ucranianos no Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, local estratégico para escoar exportações para os dois países. 

Ao menos 24 marinheiros ucranianos foram detidos pelas forças russas na operação, que deixou também três feridos. Moscou admitiu ter feito uso da força. Em resposta, Kiev pôs em alerta suas Forças Armadas. 

A Marinha ucraniana acusou a Rússia de capturar os três navios e disparar em sua direção. Segundo os russos, os navios ucranianos não responderam aos pedidos para parar e teriam “realizado uma manobra perigosa”. As embarcações apreendidas pela Rússia continuam no Porto de Kerch, na Crimeia, território ucraniano anexado pelos russos em 2014.

Além da restrição de movimento, reunião e imprensa, o pedido de lei marcial de Poroshenko ao Parlamento inclui mobilizar efetivo militar da reserva, organizar defesa antiaérea de instalações estratégicas e ordenar medidas de segurança cibernéticas. 

O decreto não menciona as eleições presidenciais, marcadas para março, o que provocou especulações na oposição de que o presidente possa usar a nova crise diplomática para adiar a votação. 

Aposta de Putin por capital político 

Para analistas, o caso oferece ao presidente russo, Vladimir Putin, uma oportunidade de testar o compromisso das potências ocidentais com a defesa da Ucrânia, ex-república soviética cuja proximidade com a União Europeia e os EUA é considerada perigosa geopoliticamente pelo Kremlin. O episódio ocorre em um momento em que americanos e europeus estão afastados por discordâncias em relação à Otan.

Líderes europeus condenaram firmemente ontem a operação. A ex-embaixadora americana na ONU, Nikki Haley também criticou “ações ilegais” de Moscou, mas ressaltou que caberá aos aliados europeus liderarem uma resposta aos russos. 

No fim da semana, quando líderes das 20 maiores economias do mundo se reunirem em Buenos Aires, na Argentina, Putin deve tirar proveito da crise, na opinião de Alexander Baunov, do Carnegie Center Moscou. “Uma escalada assim é arriscada e não ajuda nas relações com o Ocidente. Mas, se UE e EUA não reagirem, Putin sairá fortalecido.”

Esse tipo de aposta tem se tornado comum para o líder russo, que desde a anexação da Crimeia e do confronto entre Kiev e separatistas pró-Rússia, em 2014, tem usado o conflito para superar o descontentamento doméstico com a estagnação econômica e com uma reforma da previdência impopular. 

Da mesma maneira, Poroshenko tem apelado ao nacionalismo para tentar angariar apoio para uma difícil eleição em março, para a qual ele não é favorito. Seu pedido de lei marcial foi apontado por opositores como uma manobra pela reeleição. 

A reação ocidental à crise, no entanto, não deve ser dura. “O pior que deve acontecer, tanto por parte dos EUA quanto pela UE, é a imposição de mais sanções individuais”, disse o analista da Eurasia, Alex Brideau. “Sanções mais fortes podem afetar setores da economia russa, mas isso é improvável, a não ser que a situação saia de controle.”

A captura das embarcações ucranianas ocorre depois de meses de tensão na região da Crimeia. Progressivamente, a Rússia vetou o acesso ucraniano ao Mar de Azov – estratégico para as exportações agrícolas e minerais de regiões próximas às províncias separatistas de Luhasnk e Donetsk. Uma ponte construída pela Rússia no estreito diminuiu a passagem de navios mercantes pela região. / WASHINGTON POST, NYT e REUTERS


 

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