MYKOLA LAZARENKO/AFP
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Ucrânia pede ajuda à Otan e aliados tentam aliviar tensão

Poroshenko solicitou apoio de aliados, especialmente a Alemanha, para garantia da segurança na região; chanceler alemã Angela Merkel rejeita uso de força militar e pede diálogo

O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2018 | 03h44

BERLIM - O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, pediu nesta quinta-feira, 29, aos países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e especialmente à Alemanha, o envio de navios ao Mar de Azov para apoiar seu país diante das ameaças da Rússia, que apreendeu no domingo três navios ucranianos acusados de invadir suas águas territoriais. Os aliados europeus imediatamente reagiram, pedindo calma a Kiev e uma solução diplomática.

Poroshenko fez o apelo em entrevista ao jornal alemão Bild, na qual afirmou que, depois de anexar a Península da Crimeia, a Rússia quer anexar todo o país. “A Alemanha é um dos nossos aliados mais próximos e esperamos que os países da Otan estejam dispostos a enviar navios para o Mar de Azov para ajudar a Ucrânia e garantir a segurança” na região, declarou. Para o líder ucraniano, o desejo do presidente russo, Vladimir Putin, é ocupar o Mar de Azov. "Não podemos aceitar essa política agressiva da Rússia; primeiro foi a Criméia, depois o leste da Ucrânia e agora [Putin] quer o Mar de Azov", insistiu.

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Putin quer o retorno de um antigo império russo
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Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia

O presidente russo repetiu na quarta-feira, 28, que as forças de seu país cumpriram "seu dever" ao assumir o controle à força de três embarcações ucranianas na costa da Crimeia no domingo.

"A Alemanha também deve perguntar o que Putin fará se não o pararmos", disse o presidente ucraniano em um momento em que o primeiro-ministro do país, Volodymyr Groysman, é aguardado em Berlim.

Na terça-feira, 27, foi o presidente russo quem expressou à Alemanha “séria preocupação” com a Ucrânia. Por telefone, Putin disse para a chanceler Angela Merkel esperar que Berlim possa influenciar no caso e dissuadir os ucranianos de qualquer ato “irracional”.

Poucas horas depois, porém, ele recebeu uma resposta negativa da chanceler alemã, Angela Merkel. Durante um fórum econômico em Berlim, Merkel pediu que Kiev “se mantivesse prudente” e assegurou que só era possível “resolver as coisas permanecendo razoável, conversando uns com os outros”.

“Não pode haver solução militar nesse tipo de confrontação”, afirmou a chanceler alemã, que prometeu abordar a questão com o presidente russo, Vladimir Putin, durante a cúpula do G-20, em Buenos Aires, no fim de semana. 

A prudência de Merkel coincide com a de outros líderes europeus. Apesar de a União Europeia ter expressado sua consternação “pelo uso da força por parte da Rússia”, os países não consideram novas medidas para sancionar a Rússia.

A adoção de novas sanções só pode acontecer por unanimidade. A Polônia apoia a ideia, mas países como França e Alemanha consideram prematuro. Em comunicado publicado pela chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, os Estados-membros pediram “a garantia de uma passagem livre e sem obstáculos no Estreito de Kerch em direção e a partir do Mar de Azov, conforme o direito internacional”.

A questão estará no centro das reuniões da Otan na semana que vem em Bruxelas, embora a organização mantenha uma posição de prudência. “Já existe uma forte presença da Otan no Mar Negro, mas vamos avaliar a situação”, declarou a porta-voz da aliança atlântica, Oana Lungescu.

Incidente no Estreito de Kerch

A crise foi provocada pela captura, no domingo, 25, de três navios ucranianos no Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, local estratégico para o escoamento de importações.  A guarda costeira russa disparou contra três navios da marinha ucraniana, deixando três feridos entre os marinheiros a bordo.

Este é o primeiro confronto militar aberto entre Moscou e Kiev desde a anexação da Criméia e o início, também em 2014, de um conflito armado no leste da Ucrânia entre as forças ucranianas e separatistas pró-russos, que já deixaram mais de 10.000 mortos.

"Putin quer o retorno de um antigo império russo, Crimeia, Donbass, quer todo o país", afirmou Poroshenko. "Como um imperador russo, como ele se vê, seu império não pode funcionar sem a Ucrânia, ele nos considera uma colônia", acrescentou o chefe de Estado.

Poroshenko também fez um apelo à chanceler alemã, Angela Merkel. "Em 2015, nosso país salvou as negociações em Minsk" para encontrar uma solução para a situação no leste da Ucrânia, disse ele. "E esperamos que ele nos apoie novamente, junto com nossos outros aliados."

O incidente no Estreito de Kerch poderá gerar reflexos nas relações entre Rússia e Estados Unidos. Em entrevista ao jornal "The Washington Post", o presidente Donald Trump afirmou que, por conta da "agressão russa", sua reunião com Vladimir Putin durante a cúpula do G-20 em Buenos Aires, previamente anunciada, poderá não acontecer.

Movimentações

Nesta quarta, 28, um porta-voz militar russo informou que o país instalará uma nova divisão de mísseis antiaéreos S-400 na Península da Crimeia. Anteriormente, autoridades da Rússia tinham informado que três divisões de mísseis S-400  garantiam a segurança do espaço aéreo da península, anexada pela Rússia em 2014. Os sistemas de mísseis S-400 podem abater simultaneamente vários alvos a uma distância de até 400 quilômetros e a uma altura de até 30 quilômetros.

Também nesta quarta, a resposta de Poroshenko foi a promulgação da lei marcial na Ucrânia. O texto deverá valer por 30 dias em dez regiões fronteiriças e costeiras. Autoridades ucranianas asseguraram que a legislação, que torna possível mobilizar os cidadãos, controlar os meios de comunicação e limitar os encontros públicos, é essencialmente "preventiva". /AFP e EFE

 


 

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