AP Photo/Ahn Young-joon
AP Photo/Ahn Young-joon

Presidente das Filipinas afirma que abusou sexualmente de empregada doméstica na adolescência

Porta-voz de Rodrigo Duterte classificou o episódio como uma “anedota engraçada”

Redação, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2018 | 13h47

MANILA - O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, afirmou ter abusado sexualmente de uma empregada doméstica quando ele era adolescente. A fala aconteceu em discurso a autoridades locais no último sábado, 29, e foi condenada por grupos de mulheres. O governo classificou o episódio como uma piada.

Criticando a Igreja católica pela forma com que a instituição lida com crimes de abuso sexual, Duterte lembrou de uma confissão que fez a um padre filipino sobre entrar no quarto de uma empregada doméstica e abusar dela.

“Eu levantei o cobertor”, disse o presidente das Filipinas. “Eu tentei tocar o que estava dentro da calça. Eu estava tocando, ela acordou. Então eu saí do quarto”, acrescentou. Segundo ele, o padre pediu que rezasse “cinco Ave Marias porque você irá para o inferno.”

O discurso acabou sendo alvo de críticas de movimentos a favor das mulheres, que pediram que abandonasse o cargo.

Para Joms Salvador, secretária-geral de Gabriela, uma organização pelos direitos femininos, a fala de Duterte normaliza a violência contra as mulheres. “Infelizmente, o machismo de Duterte e o mal-estar com mulheres são sintomáticos do sexismo da sociedade das Filipinas e da cultura patriarcal”, afirmou.

Um porta-voz do presidente, Salvador Panelo, caracterizou a fala de Rodrigo Duterte como uma “anedota engraçada para dramatizar” o real problema dos abusos sexuais cometidos por padres. No passado, o filipino afirmou que foi molestado por um padre quando estudava em uma escola de ensino médio jesuíta.

O porta-voz afirmou que o presidente “inventou” o episódio para falar de um padre que queria ouvir histórias de meninos pecadores. Durante o discurso, Duterte “propositalmente adicionou vulgaridade à história” para torná-la engraçada para os ouvintes e para mantê-los interessados na mensagem, de acordo com Salvador Panelo.

“O presidente desenvolveu um método pernicioso de expor críticas das práticas hipócritas dos homens de batina”, disse o porta-voz. Duterte considera a sua estratégia “efetiva em transmitir à nação os seus dogmas políticos e sociais”, acrescentou.

Ataques às mulheres e à Igreja

Em fevereiro deste ano, Duterte ordenou que militares filipinos atirassem em guerrilheiras comunistas nas genitálias. Durante a campanha presidencial de 2016, ele fez piada sobre a tentativa de estuprar uma missionária australiana durante uma rebelião penitenciária em 1989 em sua cidade-natal, Davao.

Rodrigo Duterte também fez comentários sexuais para atacar Leila de Lima, uma senadora e ex-secretária de Justiça que tem sido crítica à guerra às drogas conduzida pelo atual governo, deixando milhares de mortos nas Filipinas.

O presidente também faz comentários contra a Igreja católica, crítica à sua gestão. Recentemente, ele afirmou que decaptaria um bispo da Igreja que liderou protestos contra ele.

Polêmicas

Richard Javad Heydarian, um analista político da Universidade De La Salle, em Manila, afirmou que o presidente tem o hábito de fazer comentários estranhos sempre que ele se encontra em uma situação politicamente difícil.

Quando Duterte muda a narrativa para longe de suas questionáveis iniciativas políticas, diz Heydarian, ele parece contar com “a raiva para mantê-lo sempre nas manchetes”.

“Parece que o presidente desenvolveu uma propensão de ir além do limite sem nenhuma noção da retórica, mesmo nas férias”, disse Heydarian. / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.