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Presidente de Burkina Faso é preso e militares anunciam tomada do poder

Os militares se amotinam em vários pontos do país africano desde domingo, 23, para exigir mais recursos para conter grupos jihadistas

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2022 | 15h38

UAGADUGU - O presidente de Burkina Faso, Roch Marc Christian Kaboré, foi detido nesta segunda-feira, 24, por militares amotinados, que o mantêm em um quartel em Uagadugu, a capital do país, disseram fontes dos serviços de segurança à agência AFP. Pela televisão, militares anunciaram que tomaram o poder e dissolveram o governo.

"O presidente Kaboré, o chefe do Parlamento e os ministros estão efetivamente nas mãos dos soldados", no quartel de Sangoulé Lamizana, em Uagadugu, confirmaram as mesmas fontes. Os militares se amotinaram em vários pontos do país africano desde domingo para exigir mais recursos para conter os grupos jihadistas.

Horas depois, os militares anunciaram, via TV estatal, que tomaram o poder e dissolveram o governo. Também informaram ter fechado as fronteiras e prometeram uma "volta à ordem constitucional" em um "prazo razoável".

No poder desde 2015 e reeleito cinco anos depois com a promessa de tornar prioridade a luta contra os extremistas, Kaboré vinha sendo cada vez mais criticado pela população, farta da violência jihadista e de sua incapacidade de enfrentá-la.

Na manhã de segunda-feira, um jornalista da AFP viu um grupo de soldados encapuzados e armados estacionados do lado de fora da sede da Rádio Televisão de Burkina (RTB), que transmitia programas de entretenimento.

Soldados se rebelaram em vários quartéis do país, ontem, para exigir a renúncia dos chefes do Exército, assim como "meios adequados" para combater os jihadistas, que atuam no território desde 2015. 

Na noite de domingo, foram ouvidos tiros perto da residência do chefe de Estado, e um helicóptero sobrevoou a área com todas as luzes apagadas, segundo moradores.

Nos últimos meses, houve várias manifestações de protesto no país para denunciar a incapacidade das autoridades de conter o número crescente de atentados jihadistas. 

O presidente da Comissão da União Africana (UA), Moussa Faki Mahamat, condenou a "tentativa de golpe de Estado" em Burkina Faso.

Moussa Faki Mahamat "condena com firmeza a tentativa de golpe de Estado contra o presidente eleito democraticamente", disse a UA em um comunicado. E "pede ao exército nacional e às forças de segurança do país para acatar rigorosamente sua vocação republicana", acrescentou.

Apoio aos amotinados

Em Burkina Faso, manifestantes foram às ruas no domingo, 23, apoiar os amotinados e montaram barricadas em várias avenidas da capital que depois foram dispersadas pela polícia, acompanharam jornalistas. 

Tiros também foram ouvidos durante horas em vários quartéis do país, incluindo Sangoule Lamizana e Baba Sy, e na base aérea de Uagadugu. Também houve tumultos em Kaya e Ouahigouya, no norte do país, onde se concentra a maior parte dos ataques jihadistas, relataram moradores e fontes militares. 

O governo reconheceu que tiros foram disparados em vários quartéis, mas negou "uma tomada por parte do Exército". 

Na noite de domingo, o presidente Kaboré decretou toque de recolher "até novo aviso" das 20h às 5h30 (17h e 2h30 em Brasília, respectivamente). Também foi anunciado o fechamento das escolas na segunda e terça-feiras. 

Assim como Mali e Níger, Burkina Faso está mergulhada em uma espiral de violência atribuída a grupos jihadistas armados. Eles são afiliados à Al Qaeda e ao Estado Islâmico (EI).

Dirigidos a civis e militares, os ataques são cada vez mais frequentes e se concentram no norte e leste do país. Em quase sete anos, a violência dos grupos jihadistas deixou mais de 2.000 mortos e 1,5 milhão de deslocados.

A chegada do presidente Kaboré ao poder em 2014 trouxe grandes esperanças para o país. Ele tomou posse um ano depois da queda de Blaise Compaoré, derrubado por uma revolta popular após 27 anos no cargo. 

Foi nesse mesmo ano, porém, que Burkina Faso, até então poupada, começou a sofrer ataques de grupos jihadistas armados. Desde então, eles não param de aumentar./AFP

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