Yamil Lage/AFP
Yamil Lage/AFP

Presidente de Cuba completa 3 anos no cargo e vai assumir o comando do Partido Comunista

Miguel Díaz-Canel substituirá Raúl Castro, que está se aposentando

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2021 | 14h00

HAVANA -  Um acidente de aviação, um tornado, uma chuva de sanções de Washington e, ainda por cima, uma pandemia: após três anos de pesadelos, Miguel Díaz-Canel sobe ao último escalão do poder em Cuba para assumir as rédeas do Partido Comunista.

"Como dizemos em Cuba, teve que dançar com a mais feia", diz o professor e ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray.

E o mais feio foi "Donald Trump". Durante seu mandato, o presidente dos Estados Unidos aplicou 280 sanções contra o governo comunista, acusando-o de violar os direitos humanos e prestar apoio militar ao governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Além disso, a ilha sofreu vários "desastres naturais" como "o tornado (que atingiu Havana em janeiro de 2019), furacões e agora a pandemia", acrescenta Alzugaray.

E tudo isso sem esquecer o avião que caiu ao decolar de Havana em maio de 2018, causando 112 mortes, quando Díaz-Canel completava apenas um mês de presidência.

Pouco conhecido do grande público antes de sua ascensão, Díaz-Canel passou toda sua carreira no Partido Comunista (PCC), até se tornar o número dois do governo em 2013 e, em seguida, ser nomeado presidente pelos deputados do partido único.

Ao final do congresso do PCC, que será realizado de 16 a 19 de abril, também será o primeiro secretário do partido, cargo mais alto do país, no lugar de Raúl Castro, que está se aposentando.

"Continuidade"

Mas "o país que receberia quando foi planejada essa transferência de poder era diferente do atual", diz o analista político Harold Cárdenas, que alerta para "um agravamento da crise interna".

Substituir os irmãos Castro não foi uma tarefa fácil. Sem a legitimidade histórica dos líderes da revolução, Díaz-Cameç teve que construir sua própria, sem trair o projeto original.

Para deixar sua marca, o presidente cubano, que não é um grande orador, multiplicou suas viagens pela ilha, visitando fábricas, percorrendo campos e encontrando seus habitantes.

Esta característica contrasta com a discrição de Raúl Castro e lembra o estilo de Fidel.

Para fazer a diferença, Díaz-Canel apostou na internet, tornando-se o primeiro presidente cubano a abrir uma conta no Twitter, enquanto o país finalmente acessava a tecnologia 3G no final de 2018.

Nas redes sociais, a hashtag que mais usa é "Somoscontinuidad", uma promessa de lealdade ao legado dos irmãos Castro. 

E, diante das adversidades, endureceu sua retórica, algo que Cárdenas lamenta. "Não conseguimos ver o lado reformista do presidente Díaz-Canel nos anos Trump". "É uma pena".

"As condições têm sido tão negativas que vimos o presidente Díaz-Canel repetir (...) os erros dos dirigentes anteriores, ou seja, continuar a apostar nos ideólogos da Guerra Fria do Comitê Central" do Partido, diz o analista.

Embargo 'mais bruto'

Diante de uma sociedade civil mais exigente e atuante nas redes sociais, Díaz-Canel apareceu com uma camiseta com as cores da bandeira cubana para discursar à multidão, com lemas revolucionários, e acusar os manifestantes de serem estimulados "pelos partidários de Trump e a máfia anticubana" da Flórida.

E, enquanto a economia afundava, privada do turismo atingido pela pandemia, insistia em seu argumento-chave: o embargo dos Estados Unidos, em vigor desde 1962, é "mais bruto hoje do que nunca".

Um consolo insuficiente para os cubanos, que são obrigados a fazer fila todos os dias em frente aos supermercados para se abastecer em face de uma escassez aguda. 

Para Michael Shifter, presidente do think tank Inter-American Dialogue, com sede em Washington, nem tudo é sombrio para Díaz-Canel. 

Segundo Shifter, o presidente cubano tem "duas vantagens": "o apoio de Raúl Castro, a liderança da geração histórica e das Forças Armadas", e o fato de "ter construído uma autoridade tendo que lidar com a situação mais complexa desde o colapso soviético".

Mas o acadêmico cubano Arturo López-Levy, da Universidade de Holy Names, na Califórnia, alerta que o presidente deve "abandonar o mantra da continuidade".

"As pessoas vão avaliá-lo não por sua fidelidade, mas por encontrar soluções para os problemas que Cuba enfrenta hoje", diz. /AFP

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