Marvin Recinos/AFP
Marvin Recinos/AFP

Presidente de El Salvador usa Exército para pressionar aprovação de empréstimo no Congresso

Nayib Bukele entrou na Casa com soldados fortemente armados e deu a deputados prazo de uma semana

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 18h12

SAN SALVADOR - El Salvador acordou nesta segunda-feira, 10, em meio a uma forte crise política, depois que o presidente Nayib Bukele entrou no Congresso no domingo, 9, cercado por forças militares e deu um ultimato aos legisladores para aprovar um empréstimo controverso.

Em uma ação sem precedentes na vida política do país, soldados do Exército fortemente armados com rifles de assalto e policiais entraram na chamada Sala Azul da Assembleia Legislativa no domingo, antes da chegada de Bukele para orar na frente dos deputados.

O conflito foi desencadeado pela recusa dos legisladores em aprovar um empréstimo de 109 milhões de dólares que o Executivo exige para a compra de equipamentos do Exército e da polícia, essencial para manter em funcionamento um plano contra as gangues violentas.

"Estamos enfrentando uma crise política que exige soluções estruturais muito profundas, porque no meio de toda essa rede há pessoas que estão cansadas da classe política", disse o analista Dagoberto Gutierrez.

Após sua aparição incomum no Congresso, Bukele dirigiu-se a seus seguidores fora da delegacia parlamentar e, de uma plataforma na rua, lançou um ultimato aos deputados, dando-lhes uma semana para aprovar o crédito.

No entanto, o presidente do Congresso, Mario Ponce, anunciou segunda-feira que suspende "até novo aviso" a sessão plenária convocada para este dia e cujo único ponto a discutir é a aprovação do empréstimo.

A decisão foi fortemente criticada por Bukele. "Os deputados estão ofendidos (pelo que aconteceu no domingo). Portanto, eles punirão o povo não aprovando os fundos que prometeram aprovar hoje. Novamente eles mentiram. Não é de admirar. Eles sempre o fazem", escreveu ele no Twitter.

O deputado da Frente Nacional de Libertação Farabundo Marti (FMLN), Jorge Shafick Handal, descreveu o governante como "autoritário" e enfatizou que existem aspectos do empréstimo "que ainda precisam ser revistos" antes de aprová-lo.

"Não é com caprichos ou autoritarismo que as coisas serão feitas", disse Handal.

Calmaria

Após a forte presença dos militares no dia anterior, nesta segunda-feira o entorno do Congresso parecia um dia normal, sem soldados e com ruas tranquilas.

"Estava com medo de ver tantos soldados e policiais no prédio da Assembléia Legislativa, parecia um golpe de estado, é assustador ver essas situações", disse à AFP Marcos Salguero, que administra uma pequena empresa de alimentos perto do Centro do Governo, complexo de prédios governamentais, entre eles o Congresso. 

Gutierrez disse que o conflito será resolvido com a aprovação do empréstimo, mas deixa um aviso: "um povo que expressa ódio e até ressentimento em relação aos deputados”.

Segundo o analista, o cansaço da população com os legisladores advém do fato de "eles não terem feito nada para ajudar a melhorar as condições de segurança, saúde, educação e emprego".

E essa percepção, acrescentou, é usada pelo Executivo. "Enquanto isso não mudar, as pessoas os odiarão e o governo pressionará usando o apoio das pessoas", disse ele.

O cientista político Saúl Hernández concorda que Bukele "conseguiu identificar" na deterioração política dos partidos políticos representados no Congresso a melhor arma para "pressionar".

No entanto, ele considera que o Executivo ostentou "um abuso de poder e funções" ao militarizar o Congresso.

"Há uma manipulação de pessoas que estão cansadas de sua liderança política e que encontram na figura do presidente uma saída para problemas que não foram resolvidos há muito tempo, como a insegurança", acrescentou Hernández.

Na opinião de Hernández, os eventos de domingo "sem dúvida causaram uma imagem internacional terrível na maneira de fazer política com esse governo".

Mas ele acredita que "a pressão internacional, que pediu o diálogo para resolver problemas", pode fazer com que o governo module seu discurso.

A Anistia Internacional lembrou que o destacamento militar e policial no Congresso não faz nada além de lembrar "os tempos mais sombrios" da história de El Salvador e observou que o Presidente Bukele deve "salvaguardar" o legado dos Acordos de Paz que terminaram a uma guerra civil de doze anos em 16 de janeiro de 1992. A União Européia também expressou "grande preocupação" com o confronto. / AFP

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