Presidente do Egito demite cúpula dos militares e anula limites ao poder civil

Eleito presidente do Egito 16 meses após o fim da ditadura militar, o islamista Mohamed Morsi demitiu ontem a cúpula das Forças Armadas, incluindo o marechal Mohamed Hussein Tantawi, ministro da Defesa e ex-chefe da junta que governava o Cairo. Morsi ainda reverteu o decreto que limitava os poderes presidenciais, imposto pelos generais pouco antes de ele assumir o cargo.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h03

As mudanças anunciadas ontem são a mais ousada jogada do presidente para tentar consolidar seu poder sobre os militares, que por 60 anos comandaram o Egito. Após a Primavera Árabe, os generais vinham tentando se blindar contra a emergência de grupos islamistas - os grandes vencedores das recentes eleições parlamentar e presidencial. Morsi é da Irmandade Muçulmana, organização que por décadas foi perseguida pelos militares.

Além do ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Sami Annan, foi afastado. Outro militar de carreira, o general Abdel-Fattah al-Sisi, assumirá ambos os cargos. Os comandantes do Exército, Força Aérea e Marinha também foram passados para a reserva, embora dois deles tenham sido nomeados para outros cargos dentro do governo.

Ainda ontem, o escritório do presidente anunciou que o juiz Mahmoud Mekki passará a ocupar o cargo de vice-presidente. Nos 29 anos da ditadura de Hosni Mubarak, Mekki ganhou destaque como uma das vozes mais críticas ao regime do Cairo.

Não está claro, porém, se a saída de Tantawi - veterano de 76 anos da ditadura, escolhido por Morsi para ser ministro da Defesa - havia sido previamente acordada com os militares.

O primeiro presidente eleito da história do Egito vinha evitando um confronto direto com os generais, em busca de um governo de consenso. O general Mohamed el-Assar, nomeado ontem vice-ministro da Defesa, garantiu que as mudanças foram feitas "em consulta" com Tantawi e o restante do comando militar.

Destituição. Entre os egípcios, a presença do marechal no governo de Morsi despertava suspeitas sobre quem realmente estava no comando.

Como chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), Tantawi assumiu interinamente o poder após a queda de Mubarak. A junta militar destituiu o Parlamento em junho, ao mesmo tempo que impôs um decreto constitucional tirando do presidente poder sobre assuntos-chave, como o orçamento da Defesa e questões de segurança. Essa lei foi anulada ontem pelo presidente Morsi.

Os anúncios de ontem foram feitos pelo porta-voz da presidência, Yasser Ali, e pegaram os analistas de surpresa. "O marechal Tantawi foi transferido para a reserva a partir de hoje (ontem)", afirmou Ali em uma entrevista coletiva no Cairo. "É uma decisão soberana do presidente para colocar novo sangue no corpo militar em benefício do desenvolvimento de um Estado novo e moderno", justificou.

Alterações. Na semana passada, Morsi surpreendeu ao destituir o ministro da Inteligência, considerado um dos principais remanescentes da ditadura de Mubarak no novo governo. O motivo da mudança foi a morte de 16 guardas de fronteira após ataques de jihadistas na Península do Sinai (mais informações nesta página).

Na mesma ocasião, o presidente ordenou a Tantawi a troca do comando da polícia nacional - força que reprimiu os protestos iniciados em 2011 - e também afastou o governador da Província do Norte do Sinai. / REUTERS

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