REUTERS/Carlos Jasso
REUTERS/Carlos Jasso

Presidente do México rejeita grandes gastos para aliviar impacto do novo coronavírus

O esquerdista Andrés Manuel López Obrador nega pedidos de empresários por pacotes de estímulo para a economia mesmo com o risco de levar milhões de mexicanos à pobreza

Azam Ahmed, NYT

09 de junho de 2020 | 02h00

CIDADE DO MÉXICO - Pela segunda vez em um mês, os principais líderes empresariais sentaram-se com o presidente do México para implorar que ele fizesse mais para salvar a economia. As pessoas estão perdendo empregos às dezenas de milhares, eles alertaram. 

As pequenas e médias empresas, que empregam mais de 70% da força de trabalho mexicana, estavam ficando sem dinheiro. O governo precisava intervir, eles argumentaram. Os dados eram irrefutáveis. "Eu tenho outros dados", disse, encolhendo os ombros, o presidente Andrés Manuel López Obrador, segundo dois empresários com conhecimento direto dessa conversa em abril.

"Você faz o que acha que precisa fazer e eu farei o que preciso fazer." Em todo o mundo, os governos correm para injetar dinheiro nas economias instáveis, na esperança de evitar as piores consequências financeiras da pandemia. Eles reuniram trilhões de dólares em medidas de estímulo para manter as empresas em movimento e os funcionários na folha de pagamento. A lógica: quando a pandemia finalmente passar, as economias não terão que começar do zero para se recuperar.

No México, esse esforço de resgate não chegou. A pandemia pode levar a um acerto de contas econômico pior do que qualquer coisa que o México tenha visto em talvez um século. Mais empregos foram perdidos em abril do que foram criados em 2019. Um relatório recente de uma agência governamental disse que até 10 milhões de pessoas podem cair na pobreza este ano.

No entanto, a maioria dos economistas estima que o México aumentará os gastos apenas um pouco - em menos de 1% de sua economia - uma pequena quantia em comparação a muitos países.

O motivo? Críticos e apoiadores concordam: López Obrador. Hostil em relação a resgates financeiros, relutante em assumir dívidas públicas e profundamente desconfiado da maioria dos líderes empresariais, o presidente do México optou amplamente por se manter firme, apesar do que se espera ser uma dor generalizada de alto a baixo na escada econômica.

"O governo deve ajudar o setor privado o máximo que puder, caso contrário, nosso produto interno bruto (PIB) poderá cair até 10%, o que seria um desastre", disse Carlos M. Urzúa, ex-ministro das Finanças de López Obrador. "Isso pode ser feito", continuou Urzúa, observando os níveis relativamente baixos de dívida pública no México. Mas "López Obrador realmente não tem ideia da tempestade que está por vir".

Polarização política

Em um momento de completa polarização no México, quando as reações a López Obrador vacilam entre a devoção completa dos apoiadores e a raiva cáustica dos detratores, a necessidade de montar uma resposta econômica ofereceu um raro vislumbre de unidade. Ainda assim, López Obrador, um esquerdista populista, resistiu à pressão para fazer mais, cauteloso em assumir dívidas públicas e sobrecarregar o país com as contas que pode ter dificuldade em pagar no futuro.

Parte da pressão sobre López Obrador veio de lugares previsíveis: políticos da oposição, economistas pró-mercado e a rica comunidade empresarial, grupos que tendem a encontrar erros em quase todos os passos que ele dá.

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Mas membros do próprio gabinete do presidente também o encorajaram a agir, argumentando que não fazer isso pode prejudicar o país, dizem funcionários do governo. 

Funcionários dos bancos federais e uma série de economistas também simpatizam com sua política. "Todo dia conta", disse Santiago Levy, economista a quem foi oferecido o papel de ministro das Finanças no governo de López Obrador logo após sua eleição em 2018. "Uma recessão era inevitável, mas o custo de não fazer mais implicará em uma recessão muito mais longa e profunda."

Um grupo de governadores estaduais, incluindo um do partido de López Obrador, formou uma coalizão para exigir que ele faça mais para ajudá-los financeiramente. "Precisamos de uma estratégia de unidade e, em vez disso, não recebemos absolutamente nada", disse Martín Orozco Sandoval, governador de Aguascalientes, no centro do México. O governo diz que adotará uma abordagem cautelosa quanto a resgates financeiros e gastos pesados.

Graciela Márquez, secretária da economia, contestou afirmações de que o México poderia facilmente aumentar a dívida ao gastar mais. O custo seria proibitivo, disse ela, e assumir dívidas liberalmente poderia ser mais problemático do que benéfico: "Se em um determinado momento precisarmos aumentar mais as dívidas, iremos", disse Graciela, economista formada em Harvard. "Não é uma estrada fechada." "Isso deve ser feito com responsabilidade, sem gerar mais problemas do que os que já se está tentando resolver."

Recuperação econômica 

O dano econômico da pandemia é algo esperado. Mas a diferença entre uma longa e prolongada crise e uma recuperação significativa, aos olhos de muitos economistas, depende da capacidade do governo de ajudar empresas e trabalhadores a não afundarem até que o pior tenha passado.

As ações tomadas até o momento incluem uma série de microempréstimos de cerca de US$ 1.000 a pequenas empresas nos setores informal e formal. Especialistas dizem que os dois milhões de empréstimos disponíveis mal arranham a superfície do mercado informal, onde trabalham cerca de 30 milhões de pessoas. E o dinheiro não é uma concessão; é um empréstimo que as lojas de família precisam começar a pagar em alguns meses.

"Mas você precisa proteger o emprego formal e precisamos fazer mais para ajudar os trabalhadores informais", acrescentou Levy. Em vez disso, os governadores estão prometendo um motim, e um quadro de desastre econômico ameaça o país. O turismo quase desapareceu totalmente. As remessas dos Estados Unidos devem despencar. 

E com os preços do petróleo próximos a mínimos históricos, a economia do México perdeu mais um mecanismo: "Para todos eles, esse golpe ao mesmo tempo é devastador", disse Roberta S. Jacobson, ex-embaixadora americana no México. "Enquanto isso, o presidente parece estar apenas duplicando as políticas que ele já tinha em vigor." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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