Reprodução/ABC Color
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Presidente do Paraguai conhecia termos de acordo secreto sobre Itaipu, diz jornal

Mario Abdo Benítez teria trocado mensagens sobre a negociação com Pedro Ferreira, então diretor de estatal paraguaia de energia, e ordenado que ata não fosse revelada​, segundo o diário 'ABC Color'

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 12h08
Atualizado 06 de agosto de 2019 | 16h16

ASSUNÇÃO - Uma suposta troca de mensagens entre o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, e o então presidente da estatal energética do país, Pedro Ferreira, publicada nesta terça-feira, 6, pelo jornal ABC Color indica que o mandatário tinha conhecimento dos termos do acordo sobre Itaipu negociado com a Eletrobrás e assinado em segredo em 24 de maio.

As conversas entre Abdo Benítez e Ferreira, com mensagens trocadas entre fevereiro e junho, revelam também que o líder paraguaio foi pressionado pelo Brasil para aceitar e cumprir os termos da ata sobre a venda de energia de Itaipu e defendeu, ele próprio, que o acordo fosse mantido em sigilo.

Na primeira conversa dos dois mostrada pelo jornal, em 14 de fevereiro, Ferreira afirma que "as questões sobre Itaipu causarão repercusssão" e que os "brasileiros querem que o custo (paraguaio) aumente, o que deve aumentar a tarifa". Ele diz ainda que, apesar da discrição das negociações, já havia sido contactado por um jornalista sobre esse assunto.

Quase um mês depois, em 5 de março, Abdo Benítez cobra avanços das negociações conduzidas pela Administración Nacional de Electricidad (Ande), comandada por Ferreira, e a Eletrobrás. "PEDRO, apresse (a) solução (entre) ANDE (e) Electrobras (sic)", escreve o presidente paraguaio. 

"Está tudo parado. Temos que movimentar a economia e Itaipu é uma ferramenta. Não é possível ganhar tudo em uma negociação", completa o presidente do país vizinho. Ferreira responde dizendo que faria tudo que fosse possível, mas que os termos defendidos pelo Brasil implicariam em aumentos tarifários com impacto de quase US$ 400 milhões. Nos dias seguintes, delegações paraguaias foram ao Brasil dar prosseguimento às negociações.

Em abril, depois de o ABC Color publicar reportagem dizendo que o Brasil queria diminuir os benefícios que Assunção mantinha de negociações anteriores, Abdo Benítez envia duras mensagens para o então diretor da Ande. "(A reportagem) me preocupa. Isso afeta nosso governo. E muito. Aqui, ninguém vai ganhar se o governo for debilitado (...) e se chegarmos a um ponto em que a negociação seja sob pressão. É preciso resolver o quanto antes", escreveu.

Ferreira diz que colocaria "todo o empenho" nas tratativas entre Ande e Eletrobrás. Marito, como é conhecido o presidente paraguaio, agradece. "Aqui temos que negociar. E, ao negociar, sacrificam-se posições e, algumas vezes, princípios. Mas essa é a responsabilidade que temos hoje", disse o presidente. "Não acredite que eu faço tudo que quero. Todos os dias tenho que 'engolir remédios amargos', mas hoje o país está em nossas mãos e acredito que está nas melhores mãos. Força!" 

"Ficar em silêncio"

Em 23 de maio, um dia antes da assinatura do polêmico texto entre os dois países na capital brasileira, Ferreira enviou para Abdo Benítez a proposta da Ande que seria apresentada pelo então embaixador paraguaio no Brasil, Hugo Saguier

Ele também avisa ao presidente que não poderá participar da reunião em Brasília, mas que enviaria em seu lugar Fabián Cáceres, atual presidente interino da estatal paraguaia.

Depois dessa data, o ABC Color afirma que só teve acesso a conversas trocadas por eles duas semanas mais tarde, mas ressalta que podem existir outras mensagens nesse intervalo.

Em 8 de junho, o presidente da Ande diz ao presidente paraguaio que estava muito preocupado por causa do acordo assinado com o Brasil já que havia uma variação entre as porcentagens propostas pelos países que poderia aumentar em mais de US$ 140 milhões o custo do contrato ao seu país.

"Desculpe por incomodá-lo, presidente. Conversei ontem e anteontem muito preocupado com o chanceler (Luis Alberto Castiglioni). O acordado por escrito com o Brasil pode implicar um aumento notório nos custos. Nos disseram que se acordou 12% para o qual calculamos US$ 200 milhões no período, mas em outro artigo são adicionados 6% que fazem o custo crescer para US$ 341 milhões. Isso, necessariamente, causará um aumento de tarifa", escreveu Ferreira. 

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Em seguida, ele reclamou da abordagem dos negociadores brasileiros e disse ter apontado o problema tanto para o chanceler quanto para o embaixador paraguaio. "Os brasileiros na mesa técnica fazem uma leitura textual, não de acordo com o que o vice-ministro diz ter concordado. Alertei sobre este grave problema ao chanceler e ao embaixador assim que lemos o texto", disse.

Entre os dias 8 e 11 daquele mês, os dois trocaram várias mensagens. No dia 11, Ferreira envia uma foto para Abdo Benítez da assinatura da Ata de Critérios de Contabilização dos Suprimentos da Itaipu (Cecoi), em Ciudad del Este. O presidente, então, recomenda: "É preciso ficar em silêncio e não polemizar".

Quem assume a responsabilidade?

Em 4 de julho, Ferreira e Abdo Benítez tiveram uma longa troca de mensagens sobre os desencontros na negociação conduzida pela chancelaria paraguaia e as autoridades brasileiras. "Não gosto de alguns quererem que a Ande assuma, sem ter sequer participado, o que outros assinaram. Quando quiser, te explico", escreveu.

Alguns minutos depois, o presidente responde: "Temos que (fazer) essa crise passar e Itaipu financiar o que a Ande necessitar. Isso tem que passar. Depois vemos (o que fazer). Façamos com sabedoria, estamos em um momento difícil. O Brasil congelou relações conosco por não cumprirmos o que assinamos. Está em andamento a construção de duas linhas (de transmissão). Há muito por fazer".

O presidente da estatal insiste, no entanto, sobre a diferença de 6% no aumento. "Vejamos como cobrir. Reabriremos o debate quando for necessário", replica Abdo Benítez.

Na sequência, Ferreira envia uma longa mensagem para o presidente criticando mais uma vez os termos aceitos pelos negociadores. "Eu gostaria de mostrar os números e nossa análise. A prova de que o acordo é claramente inconveniente é que eles querem que o mantenhamos em segredo. Por que aqueles que assinaram e viram a ata não saem para defendê-la publicamente? Quando isso explodir você, o chanceler e eu vamos ter que dar a cara. Ninguém mais vai explicar", escreveu.

O presidente paraguaio insiste em uma solução negociada. "Não é definitivo, Pedro. Há muitas coisas adiante. Nós também teremos ferramentas mais para frente que hoje não temos. Que estamos começando a trabalhar (para) se ficarmos sem opções. Nos sentamos para conversar quando nos prejudicar", respondeu.

"Negocie minha cabeça"

No dia seguinte, às 3h55, Abdo Benítez escreve para Ferreira informando que repassou a preocupação do presidente da Ande para o chanceler. "O Paraguai não pode ter duas posições com o Brasil. Já pedi a Luis (Castiglioni) o que você me pediu. Ele concordou em enviar uma instrução por escrito sobre a aprovação das atas e as instruções para a Ande. Espero que tudo corra bem e seja cumprido, ou o chanceler não terá autoridade alguma com o Brasil. Está muito claro", disse.

Às 6h57, Ferreira respondeu: "Presidente, se servir para algo, negocie minha cabeça, não a Ande. Eu entenderei e apoiarei essa postura", escreveu. "Sei das dificuldades do cargo de presidente, mas não posso assinar algo contrário ao meu país, não conscientemente, e em cima de algo que eu acho que vai te prejudicar muito".

O ABC Color não tem outros registros de possíveis conversas entre os dois depois dessa data. Pedro Ferreira pediu demissão em 24 de julho.

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