Presidente do Sudão diz que conta com apoio do Brasil

Em entrevista, Bashir questiona legitimidade do TPI e exalta parceria com Brasília no cenário internacional

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

30 Março 2009 | 07h37

O Sudão quer o apoio de países sul-americanos, em especial do Brasil, para "derrotar o colonialismo que quer fazer com que nossos cidadãos continuem oprimidos". As declarações são do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, em entrevista exclusiva, por e-mail, ao Estado. Bashir, que desembarcou ontem em Doha para a cúpula da Liga Árabe, foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra em Darfur. A ONU estima que a guerra iniciada em 2003 já deixou 300 mil mortos. Na primeira entrevista a um jornal estrangeiro desde seu indiciamento, no dia 4, porém, ele não deu respostas a várias perguntas. Numa delas, o Estado questionou se ele tem a consciência tranquila. Sorridente e desafiador, Bashir chegou ontem a Doha para a cúpula dos países árabes e encontros com os presidentes sul-americanos. Seguem os principais trechos da entrevista.

 

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Por que a guerra eclodiu em Darfur?

A razão dos conflitos no continente africano, Darfur não é exceção para isso, não é o pouco desenvolvimento ou a luta pela água ou recursos naturais, mas sim a luta entre tribos por terras agrícolas. Esses confrontos se pacificaram com o diálogo entre as tribos e organizações nacionais. Mas nos últimos anos, após a explosão de conflitos em países vizinhos, o tráfico de armas e as disputas no sul do Sudão se intensificaram. Pequenos conflitos aumentaram e se tornaram uma revolução contra o Estado. Precisamos enfrentar isso para proteger nossa segurança, paz e salvar nosso povo, especialmente porque essas organizações armadas que lideram a revolução estavam atacando as propriedades privadas, instituições governamentais e cidadãos sudaneses.

Por que o governo reagiu com ataques considerados por muitos desproporcionais?

Nosso país não fez nada fora dos limites do poder legal para proteger a segurança e paz. Apenas fomos atrás das pessoas que comprovadamente cometeram crimes. Nosso Judiciário é independente. Julgamos muitas pessoas que passaram dos limites legais, que estavam lutando em Darfur por interesses pessoais.

Como o sr. avalia seu indiciamento pelo TPI?

A constituição do TPI prevê o princípio de complementaridade e não a substituição da Justiça local. Temos que acrescentar, no entanto, que o Sudão não é membro do TPI. O governo tem tentando alcançar a paz em Darfur e assinou o acordo de Abuja, em 5 de maio de 2006. Desde então, tem surgido na região de Darfur diversas facções, mais de 30, mostrando o fracasso da comunidade internacional, que buscava uma liderança no conflito. Países poderosos mandaram mensagens desencorajadoras, em vez de apoiar a iniciativa do governo, que era a de se sentar com as facções para a busca de uma solução pacífica.

O que o sr. espera da cúpula da Liga Árabe e dos países sul-americanos em relação a Darfur?

Posições de apoio foram expressas em recentes resoluções do Movimento dos não-Alinhados, Grupo dos 77, Liga Árabe, União Africana e Organização da Conferência Islâmica. Países grandes e influentes como China, Rússia, além de muitos países asiáticos, a América do Sul, América Latina e alguns países europeus. Isso mostra que as decisões que virão desses encontros poderão ajudar as pessoas e apoiar o Sudão na derrota do colonialismo que quer fazer com que nossos cidadãos continuem oprimidos.

O sr. espera um apoio do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva?

O mundo expressou de forma clara a desaprovação para essas invenções que não são nem mesmo referendada pelas Nações Unidas ou pelas organizações regionais que estão trabalhando conosco para conquistar a paz no Sudão. Temos certeza da cooperação e da solidariedade do presidente Lula e do povo brasileiro para com os sudaneses.

Como o sr. vê o futuro das relações entre o Brasil e seu governo?

As relações entre Brasil e Sudão se desenvolveram muito em diversos campos, especialmente no comércio, economia e política. Isso melhorou com a abertura de embaixadas em ambos os países. Temos juntos a esperança de um mundo de paz, segurança, cooperação e respeito entre todos. Com isso tudo, também estamos dizendo que nossa relação tem raízes fortes e profundas no passado, já que já tivemos relações com o Brasil nos campos cultural e esportivo, das quais até hoje os sudaneses se lembram, como a visita do time do Santos, liderado pela lenda internacional do futebol, o rei Pelé (em 1973).

O sr. apoiaria a candidatura do Brasil como membro do Conselho de Segurança da ONU?

A discussão no momento é para uma reforma das Nações Unidas, como uma tentativa para que ela represente todos os povos e continentes do mundo em pé de igualdade, qualificando o Brasil como um país de liderança na região, por conta de sua economia e política.

Israel teria atacado um comboio no Sudão que estaria levando armas ao Hamas. Como o sr. avalia isso?

Qualquer ataque contra um Estado soberano está em violação do direito internacional e exige uma punição adequada.

Quem é:

Omar al-Bashir

Chegou ao poder por meio de um golpe de Estado, em 1989, e desde então mantém-se intocável, resistindo a conflitos internos e embargos

É casado com duas mulheres, sem filhos, e cultiva imagem de líder carismático

 

 

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