Pablo Forciuncula/AFP
Pablo Forciuncula/AFP

Presidente do Uruguai manda prender chefe militar

Tabaré Vázquez ordenou prisão por 30 dias por considerar críticas de general à reforma das Forças Armadas um ‘ato político’ 

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 05h00

MONTEVIDÉU - O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, ordenou ontem a prisão por 30 dias do comandante do Exército, Guido Manini Ríos, por “repetidas falhas disciplinares”, disse o Ministério da Defesa. “Eu sou o comandante das Forças Armadas e, se deve haver disciplina e verticalidade, temos de começar com o número 1”, disse Vázquez. Um presidente civil ordenar a prisão de um militar é um fato inédito no país.

 O governo uruguaio não especificou quais foram as “falhas disciplinares”, mas a imprensa do país diz que a sanção surgiu como resultado de repetidas manifestações públicas de Manini Ríos expressando sua posição contrária à reforma do fundo de pensões militares apresentada pelo governo de Tabaré Vázquez e aprovada há algumas semanas no Senado.

O ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menéndez, afirmou que Manini Ríos foi punido de acordo com determinação da Constituição, “que não permite nem ao presidente da república nem aos militares exercer qualquer tipo de atividade política no cargo”, disse Menéndez. “Comentar um projeto de lei que está sendo discutido no Parlamento é uma atividade política.” Segundo Menéndez, o comandante já foi notificado por telefone. Ele está em uma missão no México e começará a cumprir a punição quando voltar, na próxima segunda-feira.

Ontem, o presidente uruguaio afirmou que Manini Rios havia sido avisado sobre o caso. “Há pouco mais de um mês, comunicamos que ele não deveria se manifestar novamente sobre temas políticos, um pedido que ele descumpriu”, disse Vázquez. “A punição em si será suficiente e ele vai continuar no cargo que ocupa, porque não houve quebra de confiança”, disse o presidente.

Em agosto, o chefe militar tinha dito que discordava da reforma proposta pelo governo. Depois que o Senado aprovou o projeto, em 27 de agosto, reduzindo o total de soldados das Forças Armadas, estabelecendo um teto para os salários e aumentando o tempo necessário para a aposentadoria, o ministro do Trabalho, Ernesto Murro, disse à imprensa que a reforma “era generosa e atendia às demandas do Exército”. 

Diante de tais declarações, Manini Ríos se pronunciou novamente. “Eu não posso entrar em controvérsia com o ministro ou atribuir qualquer má-fé, mas acho que ele não está bem informado”, criticou Manini Ríos. “Se ele pegasse uma calculadora e fizesse as contas, veria que os nossos soldados terão de trabalhar o dobro para se aposentar com a metade.”

Vázquez disse ontem a repórteres que o militar “agiu de boa-fé e não feriu a lealdade institucional que as Forças Armadas devem ter, mas ele estava errado, e por isso foi sancionado”. 

O presidente uruguaio também disse saber que muitos criticaram sua decisão, mas afirmou que não havia outro jeito. “Era uma situação em que, se você não faz nada, te criticam, e se você faz alguma coisa, criticam também.”

Fontes ligadas ao Exército ouvida pelos jornais locais afirmaram que a pena não foi bem recebida por oficiais. “Para eles, não houve nenhum ato político, apenas um comandante defendendo seus soldados”, afirmou uma fonte anônima ao jornal El Observador. / AFP e EFE

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