Presidente é cassado em 36 horas

Lugo é destituído com o voto de 39 dos 45 senadores em um processo relâmpago

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h00

A nove meses de concluir seu mandato, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, sofreu um processo relâmpago de impeachment e, na noite de ontem, abandonou o poder em Assunção. Entre a abertura do julgamento político no Congresso e o discurso de Lugo reconhecendo a destituição, passaram-se cerca de 36 horas.

Para depor o ex-bispo, que rompeu a hegemonia de décadas do Partido Colorado, eram necessários 30 votos dos 45 senadores. Ao final, 39 apoiaram o impeachment e apenas 4 votaram contra. Na votação de quinta-feira, na Câmara dos Deputados, a derrota tinha sido ainda mais dura para Lugo: 76 dos 80 parlamentares decidiram pelo fim do mandato presidencial.

Minutos após Lugo admitir sua queda, o vice-presidente Federico Franco, do Partido Liberal, tomou posse da presidência. Franco não citou o nome do antecessor e, pouco mais de uma hora depois de Lugo formalmente atirar a toalha, o novo presidente entrava no palácio seguido por uma procissão de uma centena de partidários. O ex-ocupante da cadeira presidencial deixara o local pelos fundos. "Submeto-me à decisão do Congresso", disse Lugo em sua primeira declaração depois da destituição. "A história paraguaia e sua democracia foram feridas profundamente."

Lugo era acusado de "incompetência" e "mau governo" por causa da morte de 17 pessoas no dia 15 em um conflito fundiário em Curuguaty, perto da fronteira com a Argentina. A Constituição paraguaia prevê a figura do julgamento político, que não envolve necessariamente crimes ou transgressões administrativas do mandatário, mas uma reprovação geral de seu governo nas duas casas do Parlamento.

Em 1999, o presidente paraguaio Raúl Cubas Grau também sofreu processo semelhante, mas renunciou antes de o Congresso votar sua cassação. Diferentemente de Cubas, que teve cinco dias para se defender, Lugo recebeu pouco mais de um dia de prazo.

À frente de todo seu gabinete e de um grandioso quadro de Solano López, o presidente deposto fez um discurso de despedida em tom calmo, mas voltou a falar que foi vítima de um golpe. Lugo fez ainda alusões a supostas relações de congressistas paraguaios com o narcotráfico, mas em seguida deixou claro que não pretendia se entrincheirar no palácio presidencial. "Saio pela maior porta da pátria: o coração de meus compatriotas."

A notícia da queda de Lugo foi festejada no comitê de campanha do Partido Liberal, que até o início da semana compunha a maior parte da base governista no Congresso. Único liberal a rebelar-se contra a decisão do partido, Luis Alberto Wagner disse ao Estado que o Paraguai está em rota de colisão com os demais países sul-americanos, que agora ameaçam suspendê-lo de mecanismos multilaterais como Mercosul e Unasul (mais informações na página 16).

Carlos Licera, um dos cinco deputados encarregados da acusação contra Lugo no Congresso, afirmou que o julgamento político foi aberto por "violações à Constituição".

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