Presidente é forçado a voltar à área da qual se orgulhou de ter saído

Segundo o analista Juan Cole, historiador da Universidade de Michigan, intervenção refletemudança de estratégia

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h02

A intervenção americana no Iraque representa uma grande mudança na estratégia do governo de Barack Obama em relação ao país que os EUA ocuparam entre 2003 e 2011, cuja retirada é considerada pelo presidente uma de suas maiores conquistas. Concretiza ainda o fracasso da política do premiê iraquiano, o xiita Nuri al-Maliki, em garantir a segurança diante do avanço dos radicais sunitas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês).

De acordo com Juan Cole, professor de história da Universidade de Michigan, a nova ação militar americana no Iraque é "tática e não implica um acionamento de tropas".

"Aparentemente, informações de inteligência mostraram o perigo de o autodenominado 'Estado Islâmico' simplesmente marchar sobre Irbil e tentar conquistar o Curdistão iraquiano. Os EUA têm muitos diplomatas e espiões em Irbil (capital da região semiautônoma) e isso não pode ser tolerado", disse ao Estado Cole, que no mês passado publicou o livro The New Arabs (Os Novos Árabes, em tradução livre), sobre levantes e guerras civis nos países muçulmanos desde o fim de 2010.

Segundo Cole, a intenção dos americanos é dar "aos paramilitares curdos, os peshmerga, apoio aéreo contra os extremistas sunitas árabes". "Obama é alérgico a botas no chão", disse o analista, em referência à suposta ojeriza do presidente americano em acionar tropas terrestres para intervenções armadas.

'Primavera iraquiana'. Lembrando que a ascensão do Isil na Província de Anbar, de predominância sunita no oeste do Iraque, em janeiro, ocorreu após o governo xiita atacar um protesto pacífico que ocorria em Ramadi, Cole afirmou que movimentos civis foram responsáveis pela consolidação do poder dos radicais no norte do país, em junho.

Os extremistas, segundo ele, não teriam capacidade de controlar cidades como Mossul, a segunda maior do Iraque, sem apoio popular de sunitas moderados ou nacionalistas. Os sunitas representam 75% da população de Mossul.

De acordo com Cole, a violência da reação do governo xiita fez com que sunitas moderados entrassem no Isil "ou simplesmente aceitassem o comando dos radicais". "Eles precisavam de proteção e os combatentes puderam protegê-los", disse.

O analista afirmou que a "xiitização" do Exército iraquiano contribuiu para os militares passarem a ser vistos com desconfiança pelos sunitas. Isso ocasionou um levante popular contra as Forças Armadas em Mossul e outras cidades do norte do Iraque. "O que realmente ocorreu após 10 de junho (data da tomada de Mossul pelo Isil) foi uma série de levantes urbanos de árabes sunitas contra o governo de Maliki. Os militares não se sentiram capazes de ficar para lutar. Então, fugiram."

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