Presidente egípcio assumirá com poderes esvaziados e país dividido

Vitória de candidato da Irmandade Muçulmana está longe de encerrar os desafios à democracia egípcia

BBC Brasil, BBC

25 de junho de 2012 | 13h24

CAIRO - Os militares que organizaram e mantiveram firme controle sobre o processo de votação no Egito reconheceram a vitória do candidato islâmico Mohammed Mursi, nas eleições presidenciais, apesar dos receios de fraude e instabilidade no cenário pós-eleitoral. Mas os desafios para a nova democracia egípcia estão longe de ter terminado.

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Para começar, o novo presidente, do Partido Liberdade e Justiça - braço político da Irmandade Muçulmana -, governará com poderes esvaziados. Horas antes do fechamento das urnas no segundo turno, no dia 17, a Junta Militar que governa o país desde a queda do regime de Hosni Mubarak emitiu uma emenda constitucional segundo a qual o novo presidente não terá poderes sobre o Exército, a política externa e de defesa.

O Parlamento também foi dissolvido no último dia 14 pelo Tribunal Constitucional egípcio e novas eleições gerais para o Legislativo não podem ser realizadas até a aprovação de uma nova Constituição, segundo disposições dos militares.

Na realidade, ainda não está claro até onde irão os poderes do novo presidente, que está iniciando as articulações políticas para formar seu gabinete e escolher um primeiro-ministro.

Analistas esperam que a Junta Militar assuma a autoridade legislativa e mantenha o controle sobre o orçamento estatal e o processo de redação da nova Carta.

Por isso, apesar da vitória de Mursi, integrantes da Irmandade Muçulmana asseguram que continuarão a protestar na praça Tahir.

Mursi também fez sua primeira afronta à cúpula militar do país ao anunciar que só prestará juramento para assumir o cargo diante do Parlamento.

Polarização

Um segundo desafio do novo governo está relacionado ao fato de o Egito ser hoje um país polarizado.

Mursi obteve 51,7% dos votos no segundo turno da eleição, mas seu rival, o general reformado da Forças Aérea Ahmed Shafiq, último primeiro-ministro no regime de Mubarak, ficou com 48,3%.

Para atrair votos, o candidato do Partido Liberdade e Justiça adotou um discurso em favor da união nacional. Mas muitos egípcios ainda temem que ele transforme o país numa República Islâmica.

Não será fácil convencê-los de que o novo presidente não representa apenas os interesses da Irmandade Muçulmana, por muitos anos um grupo ilegal no Egito.

A escolha do primeiro-ministro será crucial para os esforços de conciliação. Mursi já prometeu apontar alguém de fora do grupo islâmico para o posto e pode escolher moderados também para a vice-presidência e ministérios.

Ele também renunciou formalmente à Irmandade Muçulmana no domingo, ainda que na prática o grupo deva permanecer influente em seu governo.

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