EFE/ Martin Alipaz
EFE/ Martin Alipaz

Presidente eleito da Bolívia nega espaço para Evo na gestão

Luis Arce diz que ex-presidente pode voltar ao país quando quiser, mas sua influência será limitada à liderança do partido governista

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 20h37

LA PAZ - Luis Arce, presidente eleito da Bolívia, disse ontem que “não há papel” em seu governo para o ex-presidente Evo Morales, que governou o país por quase 14 anos antes de renunciar sob pressão, no ano passado, e se exilar na Argentina. Arce foi eleito no domingo – apesar de a apuração ainda estar em andamento – conduzindo o partido Movimento ao Socialismo (MAS) de volta ao governo.

Do exílio, Evo continua sendo presidente do MAS. Para Arce, qualquer influência do ex-presidente continuará limitada a essa posição. “Ele não terá nenhum papel em nosso governo”, declarou o presidente eleito em entrevista à agência Reuters.

“Ele pode voltar ao país quando quiser, porque é boliviano. Mas no governo sou eu que tenho de decidir quem faz parte ou não.”

Um ex-líder cocaleiro, elogiado por muitos por ter melhorado a vida da população em um dos países mais pobres da América do Sul, Evo está vivendo fora da Bolívia desde que fugiu do país, no ano passado, após eleições marcadas por acusações de fraude. O ex-presidente contesta as denúncias e diz que foi alvo de um golpe de Estado. 

Evo também enfrenta processos por corrupção e por estupro – ele teria se relacionado com menores de idade –, algo que ele reiteradamente nega.

“Os direitos do devido processo não foram respeitados em vários casos contra ele (Evo)”, disse Arce. “Lamento que a política tenha sido judicializada. A direita judicializou a política”, afirmou.

Como ministro da Economia de Evo, Arce ajudou a administrar um dos mercados que estava entre os que mais cresciam na região. Agora, porém, quando for empossado presidente da Bolívia no próximo mês, ele assumirá o controle de um país que enfrenta uma recessão paralisante.

“Teremos de ter medidas de austeridade. Não há outra opção se não tivermos renda suficiente para cobrir nossas atuais despesas”, declarou. Ele acrescentou que o modelo econômico que ajudou a implementar no governo de Evo funcionou e funcionará mais uma vez.

O socialista de 57 anos educado no Reino Unido, que concorreu com uma plataforma de promessas de gastos sociais, disse que os cortes não afetarão o investimento público, que, segundo ele, será uma “prioridade” para reativar o crescimento.

Ele acrescentou que emitirá títulos “se necessário”, apesar de ter criticado o governo provisório conservador da presidente Jeanine Añez – que assumiu após a renúncia de Evo – por tentar emitir papéis da dívida pública.

As vastas e inexploradas reservas de lítio da Bolívia são também um potencial impulsionador econômico, disse Arce, que podem se tornar cruciais se o mundo mudar começar a mudar sua matriz energética, com carros elétricos e outros dispositivos operados por bateria.

Arce reconheceu que a Bolívia precisa de um “parceiro estratégico” capaz de explorar com sucesso suas reservas do material, algo que, feito de maneira correta, poderia gerar até US $ 2 bilhões para Bolívia ao final de seu mandato de cinco anos, afirmou. Ele disse que não mudará a atrelagem da moeda local, o boliviano, ao dólar, citando temores de forte depreciação.

Sob Evo, a Bolívia e os Estados Unidos cortaram os laços diplomáticos. Arce disse que quer “restabelecer relações com todos os países”, mas, nesse caso, está deixando essa responsabilidade com Washington. “Se eles querem restabelecer uma relação conosco, a única coisa que pedimos é que sejamos respeitados como iguais”, disse o presidente eleito. 

Ele também afirmou que serão concedidos salvo-condutos aos ex-ministros e ex-funcionários do governo Evo que há um ano foram acolhidos na residência oficial da Embaixada do México em La Paz, muitos alvo de processos judiciais por “terrorismo” e “sedição”. “Daremos os salvo-condutos como pediram. Mas eles decidirão o que fazer”, afirmou Arce em entrevista à agência EFE.

Arce disse durante entrevista a jornalistas estrangeiros que seu governo restabelecerá relações com Cuba, Venezuela e Irã, que foram rompidas durante o governo conservador de Añez. “Este governo atuou muito ideologicamente, privando o povo boliviano do acesso à medicina cubana, à medicina russa, aos avanços na China. Por uma questão ideológica expôs a população de modo desnecessário e prejudicial.”

O virtual presidente eleito disse que conversou com o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, com o qual prometeu trabalhar para restabelecer laços entre os dois países. Arce também criticou o governo de Añez por ter expulsado, em dezembro, a então embaixadora do México em La Paz, Maria Teresa Mercado, por dar abrigo aos ex-ministros e ex-funcionários de Evo. / REUTERS e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.