Presidente eleito inicia negociações no Egito

Morsi deve anunciar em breve novo governo, dissipar temores e enfrentar série de desafios

CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h02

O presidente eleito do Egito, Mohamed Morsi, o primeiro chefe de Estado radical islâmico da história do país, iniciou consultas ontem para formar um governo, à espera de que o Conselho Supremo das Forças Armadas lhe entregue o poder executivo até o final da semana. "Em breve ele anunciará o novo governo", disse Nermin Mohamed Hasan, um de seus porta-vozes.

O candidato do grupo radical islâmico Irmandade Muçulmana derrotou com 51, 73% dos votos seu rival Ahmed Shafiq, o último primeiro-ministro de Hosni Mubarak, deposto em fevereiro de 2011.

Na qualidade de primeiro presidente do Egito escolhido em eleições livres, Morsi tem uma histórica oportunidade. Mas também tem diante de si uma série de desafios que poderão impedir que ele se torne algo mais que uma figura decorativa. Ele terá de se confrontar com os generais, que logo após a eleição tiraram grande parte do poder da presidência, e dirimir as dúvidas de praticamente 50% dos eleitores que votaram no seu adversário, assim como as de outros milhões que não foram às urnas.

Morsi terá ainda de convencer os egípcios de que ele representa mais do que os meros interesses da Irmandade Muçulmana, e dissipar os temores de muitos cidadãos convencidos de que o seu verdadeiro objetivo é fundir a noção de cidadania com o Islã.

"Os desafios são enormes", disse Mohamed Habib, ex-vice-presidente da Irmandade. "Todo mundo analisa os gestos dele pelas lentes do microscópio." Questionado se Morsi está preparado para enfrentar os desafios, Habib disse: "Não, não está".

Morsi, um engenheiro de 60 anos com doutorado pela Universidade Sul da Califórnia, lecionou engenharia em outra universidade da Califórnia e na Universidade Zagazig do Delta do Nilo.

Foi escolhido para concorrer depois que o primeiro indicado da Irmandade, Khairat el-Shater, foi desqualificado. Casado e com cinco filhos adultos, Morsi é conhecido como religioso conservador e um homem dedicado ao trabalho, tutor da ordem do seu grupo que não tolera dissensões internas. Durante a campanha, ele se definiu em certo momento como um defensor de rigorosos valores religiosos, e mais tarde como um moderado que procurava conquistar os liberais, mas pouco se esforçou para melhorar a sua imagem. "Morsi é um acidente da história. É um bom sujeito, uma pessoa comum", disse Shadi Hamid, pesquisador do Brookings Doha Center. "Acho que a verdadeira questão é: ele conseguirá mudar?" O primeiro teste de Morsi ocorrerá imediatamente. Os líderes da Irmandade anunciaram que milhares de seus partidários continuarão ocupando a Praça Tahrir até que o Parlamento, dissolvido na semana passada pelos militares, volte a funcionar.

Por sua vez, os generais afirmaram que serão realizadas eleições para a formação de um novo Parlamento, embora os que foram destituídos tenham sido empossados em janeiro.

No domingo, Morsi lançou o seu primeiro desafio aos militares, declarando que só tomará posse diante do Parlamento cujos membros foram destituídos.

Deixando de lado os complexos problemas do Egito, principalmente a fraca economia, Morsi enfrentará problemas específicos de governança, particularmente a convocação de expoentes de outros partidos que relutavam em trabalhar com a Irmandade e em lidar com a ultrapassada burocracia estatal herdada da era Mubarak.

"Isso não é como liderar um partido ou um grupo", disse Habib. "Essa tarefa é muito grande". Segundo Habib , Morsi terá de apresentar uma "retórica conciliadora", para convencer os outros candidatos à presidência, como Hamdeen Sabbahi, de esquerda, ou Abdel-Moneim Aboul Fotouh, ex-líder da Irmandade, a trabalhar com ele. "Morsi terá de fortalecer suas relações e restabelecer a confiança dos partidos nacionais", disse Habib. "Do contrário, criarão problemas para ele e puxarão seu tapete."

Morsi deixou a Irmandade no domingo, mas muitos creem que, por causa dos anos dedicados à organização, seus vínculos com ela persistirão.

Durante a campanha, Morsi nunca tomou uma decisão importante sem a aprovação da direção da Irmandade. Shater, o principal estrategista do grupo que, ao ser impedido de concorrer à presidência, permitiu a candidatura de Morsi, é considerado uma figura particularmente influente.

"Agora, ele tem a chance de tomar as próprias decisões, mas para isso terá de se distanciar da Irmandade", afirmou Hamid. "Ele precisa agir de maneira completamente independente. Não há outra escolha". / THE NEW YORK TIMES e AFP

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