Presidente empossado dissolve Congresso venezuelano

Os oficiais das Forças Armadas venezuelanas que na noite anterior depuseram o presidente daVenezuela, Hugo Chávez, instalaram hoje no poder oempresário Pedro Carmona, que tomou posse prometendo realizar novas eleições presidenciais em um ano e legislativas até dezembro. Em seus primeiros decretos, o presidente interino dissolveu o Congresso, demitiu todos os membros da Corte Suprema e mudou o nome do país de República Bolivariana da Venezuela - consagradopela Constituição chavista de 2000 - para República da Venezuela. Ele dissolveu também a Procuradoria-Geral da República, a Defensoria do Povo e a Controladoria. Os deputados eleitos na votação de dezembro terão poderes para reformar acarta.Carmona anunciou ainda o fim do fornecimento de petróleo em condições privilegiadas para Cuba - resultado de acordos bilaterais firmados por Chávez e o líder cubano Fidel Castro. Após a queda de Chávez, os funcionários da Petroleos deVenezuela (PdVSA) voltaram a produzir e as exportações de petróleo e derivados foi retomada em carga máxima. Horacio Medina, executivo da companhia estatal, estima que as operaçõestarão normalizadas em uma semana.Escoltado por oficiais militares que foram buscá-lo no Palácio de Miraflores - sede da presidência -, Chávez foi levado na madrugada de hoje para a sede do Comando-Geral das ForçasArmadas, no Forte Tiuna, sudoeste da capital. Embora o comandante das Forças Armadas, general Lucas Rincón, tivesse afirmado que ele renunciara ao cargo, nenhuma carta de renúncia havia sido divulgada até hoje.A indicação do líder interino Pedro Carmona foi contestada pelo procurador-geral da Venezuela, que a considerou inconstitucional. Vários líderes da América Latina também condenaram a derrubada de Chávez. O procurador-geral Isaias Rodriguez provocou controvérsia ao argumentar que Chávez ainda era presidente porque a constituiçãoimpõe que sua renúncia tem de ser aceita pelo Congresso."Temos informações de promotores militares que oentrevistaram de que o presidente não renunciou. Se o presidente não renunciou, se o escritório do procurador-geral não tem um documento escrito desta renúncia, o presidente Chávez continuasendo o presidente da República", disse Rodriguez, um aliado de Chávez.Não houve uma resposta imediata por parte do Alto Comando ou de Carmona, que foi empossado na noite de hoje depois que seus partidários divulgaram uma declaração acusando Chávez de violar normas democráticas e direitos humanos.A filha de Chávez, María Gabriela, disse ter conversado por telefone com o pai, que lhe pedira que "comunicasse ao mundo" que ele era "um presidente preso", não tinha renunciado nemfirmado nenhum decreto destituindo seu vice-presidente, Diosdado Cabello. A versão coincide com a do ministro da Educação de Chávez,Aristóbulo Istúriz. "Na reunião de várias horas de ontem à noite em Miraflores, ele disse aos militares que não renunciaria", declarou. "Terminem seu golpe e assumam as conseqüências de seus atos" disse Chávez aos militares, segundo Istúriz.O general Romel Fuenmayor afirmou que, durante a reunião com os militares, Chávez manifestou intenção de viajar para Cuba. "O pedido foi negado porque ele tem contas a acertar em seupaís", informou Fuenmayor em entrevista à emissora de TV Globovisión, dando a entender que a junta de o governo interina deve julgá-lo pelas mortes no conflito de quinta-feira.Chávez foi levado ao Forte Tiuna num carro blindado, na companhia de vários militares e do monsenhor Baltazar Porras, presidente da Conferência Episcopal da Venezuela. O religiosoafirmou que sua presença tinha sido solicitada pelo próprio presidente deposto - que em várias ocasiões entrou em atrito com a Igreja Católica -, como garantia de que ele não seria assassinado.Depois de ações policiais contra ministros e deputados ligados a Chávez, o presidente interino Carmona admitiu a existência de uma perseguição aos chavistas e pediu "união e conciliação" atodos os venezuelanos. "O caudilhismo e o messianismo ficou para trás e rogo por ajuda e apoio, pois é necessário retomar o clima de confiança, calma e tranqüilidade", discursou.O ministro do Interior, Ramón Rodríguez Chacín, foi preso quando chegava a seu apartamento em Caracas durante uma confusa operação policial. Aos gritos de "assassino" e "justiça", umgrupo de populares tentou linchá-lo enquanto era detido. Outro ministro de Chávez, o da Defesa, José Vicente Rangel, casado com uma cidadã chilena, pediu asilo no Chile. O governo chilenoestudava hoje o pedido.Logo ao assumir o governo, Carmona suspendeu o Congresso, a Constituição, a Suprema Corte, a Procuradoria-Geral da República a Defensoria do Povo, a Controladoria e 48 leis decretadas porChávez em novembro que, no geral, aumentavam o papel do Estado na economia. Ele também apontou um conselho 25 integrantes para assessorá-lo.Carmona, de 60 anos e líder da maior câmara empresarial da Venezuela, teve um papel-chave na greve geral desta semana que levou à queda de Chávez. "Vamos levar este navio para um porto seguro", disse Carmona. "Podemos alcançar a governabilidade necessária para melhorar a imagem da Venezuela. A era do homem forte terminou."Generais afirmaram que Chávez, de 47 anos, foi forçado a renunciar por seu Alto Comando militar depois que pelo menos 15 pessoas foram mortas e 240 feridas durante uma passeata de 150.000 pessoas em Caracas na quinta-feira. Os militaresacusaram Chávez de ter ordenado que as tropas da Guarda Nacional e atiradores civis, incluindo franco-atiradores em tetos, disparassem contra os manifestantes.Revoltados com as ordens de entregar armas aos civis, os militares rejeitaram o pedido de Chávez de se exilar em Cuba, o prenderam numa base do Exército até ser julgado por acusaçõesrelacionadas à violência de quinta-feira e lançaram uma intensa perseguição contra seus antigos ministros e colaboradores. O ex-ministro do Interior Ramon Rodriguez foi preso pela polícia.Cerca de 500 pessoas promoveram um protesto na frente da Embaixada de Cuba e cortaram o fornecimento de eletricidade e de água para o prédio por acreditarem que vários funcionários deChávez estavam abrigados no local. O governo de Cuba criticou as hostilidades e pediu às Nações Unidas para investigarem a queda de Chávez, um amigo do presidente Fidel Castro. A representaçãodiplomática informou ainda que nenhum membro do governo Chávez havia se refugiado na Embaixado.O descontentamento popular vinha crescendo nos últimos meses contra Chávez, que foi eleito em 1998 com um programa antipobreza e cujo mandato expirava em 2006. Ele já chegou a ter uma popularidade de 80%, que despencou para menos de 30% ultimamente.Ele irritou venezuelanos ao implementar políticas econômicas por decreto, atacar repetidamente as "oligarquias" que se opunham a seu governo e acusar os meios de comunicação e a Igreja Católica de conspirarem contra ele. Muitos acreditam que ele desperdiçou uma oportunidade de melhorar a vida dos 80% de venezuelanos que vivem na pobreza.O populista presidente também irritou Washington por suas relações próximas com Fidel, suas visitas ao Iraque, Irã e Líbia e suas críticas aos bombardeios norte-americanos no Afeganistão sua oposição ao livre comércio e por supostamente manter vínculos com os rebeldes esquerdistas da Colômbia.As Forças Armadas - que tradicionalmente mantêm laços próximos com os militares dos EUA - não aceitavam o distanciamento de Chávez com Washington, inclusive por sua decisão de nãoparticipar de manobras militares regionais. Forças de segurança promoveram buscas em muitas casas hoje atrás de integrantes dos Círculos Bolivarianos, grupos de bairro inspirados nos Comitês Revolucionários de Vizinhança de Cuba,que opositores afirmavam terem sido armados por Chávez e o prefeito de Caracas, Freddy Bernal. Para saber mais sobre a Venezuela e os recentes acontecimentos que desencadearam a crise política no país acesse o especial Grandes Acontecimentos Internacionais: Venezuela

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