AFP PHOTO / PPD / Ace MORANDANTE
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Presidente filipino afirma que já matou para dar exemplo

Em discurso para empresários, Rodrigo Duterte disse que costuma sair pelas ruas de Davao quando era prefeito da cidade 'procurando um confronto para poder matar'; senador diz que líder pode sofrer processo de impeachment por declaração

O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2016 | 11h05

MANILA - O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, afirmou nesta quarta-feira, 14, que matou pessoalmente supostos criminosos quando era prefeito de Davao, principal cidade do sul do país, com o objetivo de dar o exemplo à polícia. Duterte fez o comentário em um discurso para empresários ao mencionar a campanha para erradicar o narcotráfico, uma operação que provocou a morte de milhares de pessoas desde que ele tomou posse como presidente, em 30 de junho.

Ao citar as pessoas mortas pela polícia na atual guerra contra o narcotráfico, Duterte disse que havia liderado uma política similar quando era prefeito de Davao, que ele governou por duas décadas. "Em Davao eu costumava fazer pessoalmente. Apenas para mostrar aos jovens (policiais) que, se eu podia fazer, por que eles não poderiam", afirmou Duterte em um discurso no palácio presidencial.

"Saía por Davao em uma motocicleta, com uma moto enorme ao lado, para patrulhar as ruas, e também procurando problemas. Realmente estava procurando um confronto para poder matar".

O senador Richard Gordon advertiu nesta quarta que pode ser iniciado um processo de impeachment do presidente depois que este reconheceu que matou supostos viciados quando era prefeito de Davao. "Quando você diz algo assim, você está se expondo, não é verdade? Ele disse isso, portanto, legalmente, pode enfrentar um processo de impeachment", comentou o senador em referência às declarações de Duterte. 

"Em todo caso, tenho certeza que (o presidente) saberia defender-se", acrescentou Gordon, um político independente que costuma apoiar as políticas do presidente filipino.

Duterte, um advogado de 71 anos, também respondeu às críticas dos organismos de defesa dos direitos humanos e do presidente americano Barack Obama sobre sua brutal campanha contra o narcotráfico e afirmou que vai prosseguir com sua política. "Se pensam que vou parar porque tenho medo dos grupos de direitos humanos e caras como Obama, desculpe, eu não vou fazer isto", disse. 

Diante de expatriados filipinos durante uma visita ao Camboja na terça-feira, Duterte fez piada sobre o tema, ao contar que quando era prefeito acompanhava os policiais e atirava contra suspeitos. "Às vezes eu ia com eles. Se vocês dizem que eu matei alguém, talvez eu tenha feito isto. Fechava os olhos porque tinha medo de atirar", disse Duterte.

Organizações de defesa dos direitos humanos acusaram Duterte de ter liderado esquadrões da morte em Davao que eliminaram mais de 1.000 pessoas, incluindo menores de idade. Duterte já negou e também já admitiu ter desempenhado um papel nos esquadrões da morte.

Ele venceu a eleição presidencial de maio com ampla vantagem graças à promessa de ampliar a todo o arquipélago a política de repressão implementada no município de Davao. Duterte prometeu que 100 mil criminosos seriam mortos e os corpos serviriam de alimento para os peixes da baía de Manila.

Em cinco meses de presidência, a polícia informou que matou 2.086 pessoas em operações de combate às drogas. Outras 3 mil morreram em circunstâncias não esclarecidas, de acordo com o balanço oficial. Com frequência, homens encapuzados invadem os bairros pobres e favelas para matar pessoas consideradas suspeitas de narcotráfico ou pelo uso de drogas.

Os ativistas dos direitos humanos denunciam o fim do Estado de direito e citam a atuação, com total impunidade, de matadores de aluguel. Duterte alega que a polícia atua em legítima defesa e muitas mortes são provocadas por acertos de contas entre grupos criminosos.

Além disso, o presidente já afirmou que não permitirá que policiais declarados culpados de assassinato em sua campanha de combate às drogas sejam enviados à prisão.

De acordo com pesquisas, a ampla maioria dos filipinos apoia a ofensiva presidencial, por considerar, como repete Duterte, que esta é a única maneira de impedir que o arquipélago se transforme em um narcoestado. / AFP e EFE

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