Juan Karita / AP
Juan Karita / AP

Presidente interina da Bolívia nomeia primeiros 13 ministros

Em meio a velas, crucifixos e Bíblia, Jeanine Áñez nomeia ministério conservador e religioso; gabinete tem uma representante indígena

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2019 | 00h20
Atualizado 15 de novembro de 2019 | 08h12

LA PAZ - A presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, designou na quarta-feira, 13, seus primeiros 13 ministros, de um total de 20, um dia após se declarar no poder depois da renúncia de Evo Morales, que aceitou a oferta de asilo político do México. No gabinete, mais uma diferença marcante com o governo anterior: apenas uma representante indígena, a ministra de Culturas Martha Yurja. Cerca de 85% da população boliviana é de mestiços ou de origem indígena – apenas 15% dos bolivianos são brancos.


Na nova equipe se destacam a acadêmica e diplomata Karen Longari como chanceler e o senador de direita Arturo Murillo como ministro do Interior.

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"Vamos à caça de Juan Ramón Quintana (ministro da Presidência de Evo), porque é um animal que se alimenta de sangue", disse Murillo após tomar posse. Quintana é acusado de ser o "cérebro" das ações contra a oposição.

Jeanine afirmou, por sua vez, que "o trabalho principal da nossa administração será restabelecer a paz social". A onda de protestos contra e pró-Evo já deixou 10 mortos e 400 feridos na Bolívia, segundo números oficiais.

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Para ministro das Finanças foi nomeado José Luis Parada, assessor econômico do governo de Santa Cruz, rica região oriental e bastião opositor a Evo. O novo ministro da Presidência é Jerjes Justiniano, um advogado ligado ao líder que promovia os protestos contra Evo, Luis Fernando Camacho.

A pasta da Defesa coube ao consultor de marketing Fernando López Julio; a da Comunicação, à jornalista Roxana Lizarraga; a do Meio Ambiente será comandada pela ex-parlamentar María Elba Pinckert, e a da Justiça, por Álvaro Coimbra.

O ex-senador Yerko Núñez liderará a pasta de Obras Públicas. Samuel Ordóñez ficará responsável pelo Ministério do Desenvolvimento Rural, enquanto Álvaro Guzmán liderará o de Energia.

A presidente interina deixou pendentes pastas como Hidrocarbonetos, Planejamento, Educação, Saúde e Trabalho.

Crucifixo, velas e Bíblia na cerimônia de posse

Na mesa onde estava sentada a presidente durante a cerimônia de posse, no Palácio Quemado, havia um crucifixo, duas velas acesas e uma Bíblia.

"Este Conselho de Ministros que é apresentado hoje de forma parcial (...) inclui pessoas conhecedoras e especializadas de perfil técnico, como corresponde a um governo de transição", afirmou Jeanine em seu discurso.

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A presidente reafirmou que outro desafio do governo é convocar novas eleições o mais rápido possível. "Não aceitarei qualquer outra saída que não sejam eleições democráticas", já havia dito ela, uma senadora de direita de 52 anos, até então pouco conhecida no país.

"Convidaremos a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia" como observadoras das eleições, disse Karen Longari, única integrante do gabinete que falou durante a cerimônia de posse. "Faremos o necessário para deixar uma política externa estruturada", destacou ela, acrescentando que a Bolívia assumirá um papel "ativo" na diplomacia latino-americana

Nova cúpula militar

Uma das primeiras ações de Jeanine nesta quarta foi designar uma nova cúpula militar, que terá como comandante das Forças Armadas o general do Exército Sergio Carlos Orellana, que ocupa o lugar do general Williams Kaliman, que passou à reserva.

Kaliman, nomeado chefe das Forças Armadas há um ano, se negou a enviar militares para reprimir os protestos e a revolta policial contra Evo, deflagrada na semana passada.

O "Estado é necessário mais do que nunca para manter a paz", disse Orellana em um discurso no qual pediu aos seguidores de Evo que "deponham suas atitudes intransigentes".

A presidente também nomeou o novo chefe do Estado-Maior e os novos comandantes do Exército, Marinha e Força Aérea. 

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Evo critica EUA por reconhecer Jeanine como presidente interina

Evo Morales repudiou na quarta-feira o reconhecimento de Jeanine Áñez como presidente interina da Bolívia pelo governo dos Estados Unidos.

"Condenamos a decisão de Donald Trump de reconhecer o governo autoproclamado pela direita. Depois de impor (o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan) Guaidó, ele agora proclama Áñez. O golpe de Estado que provoca a morte de meus irmãos bolivianos é uma conspiração política e econômica vinda dos EUA", escreveu Evo no Twitter.

O governo americano argumentou que a proclamação de Jeanine cumpre a Constituição na Bolívia e pediu o "restabelecimento da ordem" no país. / AFP e EFE

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