Luisa Gonzalez/Reuters
Luisa Gonzalez/Reuters

Presidente interina se aproxima de militares na Bolívia

Em seu primeiro dia, Jeanine Áñez muda chefia das Forças Armadas e comparece a velório de comandante da tropa de elite

Ricardo Galhardo, Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 21h42

LA PAZ - Um dia depois de se declarar presidente interina da Bolívia, a senadora Jeanine Áñez se aproximou dos militares do país nesta quarta-feira, 13. Além de empossar o novo comando das Forças Armadas, ela passou em revista à guarnição da polícia e foi ao velório do coronel Heybert Antelo, comandante da tropa de elite que morreu na terça-feira. Em discurso, ela negou a tese de golpe de Estado e anunciou que convocará eleições gerais “no menor tempo possível”.

Fora do palácio presidencial, apoiadores do ex-presidente Evo Morales e forças militares voltaram a entrar em choque, transformando a região central de La Paz em uma praça de guerra. Também foram registrados conflitos em outras regiões da Bolívia.

Uma pessoa morreu no Departamento de Santa Cruz, totalizando oito mortes desde o dia 21 de outubro, quando se iniciaram as manifestações no país após a eleição presidencial que reelegeu Evo ainda em primeiro turno. 

Segundo fontes bolivianas, a decisão de iniciar seu governo dando posse ao novo comando militar foi uma demonstração de força de Jeanine. Na cerimônia, o novo governo voltou a usar a Bíblia e a cruz, banidos durante a presidência de Evo, e excluiu a saudação “Pátria ou morte” usada pelo antecessor. 

No pronunciamento, a presidente contestou a tese de golpe de Estado defendida por Evo e disse que o objetivo do governo de transição é “mudar o regime que fez desaparecer na Bolívia a separação entre poderes e a liberdade de imprensa”. 

Jeanine anunciou também que vai agir para que a sentença que deu a Evo o direito de concorrer ao quarto mandato, em 2017, contrariando um artigo da Constituição e o resultado de um referendo realizado naquele mesmo ano, seja derrubada. A insistência em forçar um novo mandato é vista como a origem da crise que levou à renúncia no último domingo. 

Nesta quarta, Jeanine voltou a prometer novas eleições em breve, mas não fixou um prazo. Enquanto a presidente falava, a polícia e as Forças Armadas lançavam bombas de gás lacrimogêneo em manifestantes pró-Evo que vieram de El Alto, região metropolitana de La Paz, e de pequenas aldeias na região do altiplano, atendendo à convocação de sindicatos de trabalhadores rurais. 

Aos gritos de “Golpistas não passarão!”, eles diziam não reconhecer o novo governo e pediam respeito ao resultado da eleição do dia 20 de outubro que, segundo a Organização dos Estados Americanos (OEA), foi fraudada. 

Jornalistas que foram nesta quarta ao Palácio Quemado para acompanhar o pronunciamento da presidente não puderam deixar o local em razão dos conflitos no lado de fora. Quando finalmente foram autorizados a sair, ainda se respirava gás lacrimogêneo em boa parte do centro de La Paz. “Ninguém consegue respirar. A polícia reprimiu a nós todos”, reclamou Romina Pérez, de 68 anos, que vende doces há 20 anos em uma esquina da Rua Potosí.

A senadora Adriana Salvatierra, que renunciou à presidência do Senado, disse nesta quarta que sua carta de renúncia não havia sido apresentada ao Parlamento e portanto teria direito à presidência interina. De manhã, ela e a deputada Susana Rivero, ambas do Movimento ao Socialismo (MAS), foram impedidas por policiais de entrar no Parlamento. Elas renunciaram aos seus cargos no domingo. Um policial lançou spray de pimenta contra as deputadas. 

Asilado no México, Evo Morales afirmou que a forma como Jeanine se declarou presidente interina, diante de um Parlamento esvaziado, comprovaria que houve um golpe no país.

Apesar da violência dos protestos, partidários de Evo Morales tiveram dificuldades para chegar à Praça Murillo, centro do poder político na Bolívia. Um grupo de jovens cuidava de uma barreira para impedir a entrada dos apoiadores do ex-presidente. Armados com bombas de gás, tacos de beisebol e barras de ferro, eles se revezam desde sábado no local. 

“A praça tem grande valor simbólico e não podemos deixar que eles entrem”, afirmou o estudante de ciências políticas Eduardo Rodríguez, porta-voz do grupo. De acordo com ele, o objetivo da vigília não é político, mas garantir a segurança diante da onda de saques e atos de vandalismo.

Os jovens culpam o ex-presidente pela violência. “Não é uma questão política. É de segurança. O povo de El Alto vinha fazendo manifestações pacíficas, mas algumas pessoas adotaram o vandalismo depois de um chamamento de Evo”, disse Rodríguez.

Do México, onde está exilado desde terça-feira, Evo afirmou que está pronto para “voltar e pacificar” a Bolívia, se o povo quiser. / COM REUTERS

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