AFP PHOTO / Ali SHAIGAN
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Reformista Rohani é reeleito no Irã

Com 57% dos votos, presidente que selou pacto nuclear com Ocidente ganha mais quatro anos no cargo em meio à recuperação econômica

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 06h48

TEERÃ - O reformista Hassan Rohani foi reeleito neste sábado, 20, presidente do Irã com 57% dos votos, em uma votação que mostrou o apoio dos iranianos ao pacto nuclear com o Ocidente, o fim de mais de uma década de isolamento internacional e um princípio de recuperação econômica. 

O anúncio da vitória foi feito na manhã de ontem pelo Ministério do Interior. Seu rival na disputa, o juiz conservador Ebrahim Raisi - próximo do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, teve 38% dos votos.

 

O acordo negociado em 2015 estipulou regras para o país desenvolver seu programa nuclear, que incluem inspeções internacionais e limites para o enriquecimento de urânio. O Irã alega que o programa, que começou a ser desenvolvido nos anos 50, antes da Revolução Islâmica de 1979, tem objetivos pacíficos, enquanto seus críticos argumentam que teria ambição militar, para construir bombas. 

No começo dos anos 2000, EUA e ONU impuseram sanções econômicas ao país, alegando falta de transparência. As medidas afetaram a economia iraniana. A retórica do então presidente, Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), pregando a destruição de Israel, não ajudou. 

O clérigo Rohani foi eleito em 2013 com o aval do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, para levar adiante a negociação, mesmo diante da forte resistência dos linhas-duras. O presidente prometeu que, com o pacto, viria a transformação econômica. 

Com o levantamento das sanções, o país começou a acumular algumas vitórias. Voltou a exportar petróleo - segundo o embaixador iraniano no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan, a produção foi de 1 milhão para 2,5 milhões de barris por dia, entre 2015 e este ano (mais informações nesta página), e a inflação caiu de 37,7% para 7,2%. O país fechou ainda acordos bilionários com companhias europeias e até americanas, principalmente na área de aviação. Mas o desemprego não cedeu e subiu de 10,4%, em 2013, para 11,2%, este ano. 

A explicação, segundo o especialista Pejman Abdolmohammadi, pesquisador da London School of Economics, é que o presidente não influenciou drasticamente a condição econômica iraniana, apesar de ter conseguido algumas aberturas que ajudarão no longo prazo. O baixo preço do petróleo, no momento em que o país volta a exportar, limitou os ganhos do acordo.

 

O fim da “doutrina Obama”, de aproximação com Teerã, foi outro fator negativo e está influenciando os assuntos domésticos, segundo Abdolmohammadi. O especialista da Texas Christian University, Manocher Dorraj, acrescenta que há um lobby de Arábia Saudita e Israel - rivais iranianos - para que Trump não alivie nenhuma sanção fundamental que possa trazer prosperidade à economia do país. 

Durante a campanha para tentar um novo mandato, em votação feita na sexta-feira contra Raisi, o presidente foi criticado por seus partidários por não promover a ampliação dos direitos civis e liberdades com as quais se comprometeu. “As pessoas realmente esperavam que ele pudesse fazer algo nesse sentido”, explica o pesquisador da London School. Ele foi cobrado também por não ter criado condições para libertar dois líderes reformistas em prisão domiciliar desde 2011: Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi. 

Como chefe de governo, Rohani alega que há limites para o que pode fazer. No Irã, quem dá a última palavra é o líder supremo. Mas o argumento não foi suficiente e críticas têm se repetido, como a da premiada atriz Baran Kosari, que fez campanha para Rohani em 2013. “Simplesmente dizer que ele (o governo) está sob pressão não é aceitável”, disse. 

De qualquer forma, para especialistas Rohani teve um papel fundamental para mudar a imagem internacional do Irã. “Ele foi um dos presidentes mais influentes da república islâmica, mais até, eu diria, que (Mohammed) Khatami”, disse Abdolmohammadi, em referência ao histórico líder reformista. / COM REUTERS

 

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