Presidente lembra de marido em campanha

Analistas explicam que ''mania de morte'' é comum na política argentina e luto de Cristina é teatro

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2011 | 00h00

BUENOS AIRES - Nos últimos dias, o governo da presidente Cristina Kirchner lançou a campanha publicitária "A força dele", apelando à figura do ex-presidente Néstor Kirchner, morto em outubro de ataque cardíaco fulminante. A divulgação do slogan provocou críticas da oposição, que acusa Cristina de fazer uma campanha "emocional", sem nenhuma proposta de governo.

Depois de ver o comercial, Elisa Carrió, candidata presidencial da Coalizão Cívica, disse ao Estado que o uso político do luto "ocorre porque a Argentina tem obsessão pelos mortos". "Não temos de falar sempre sobre os mortos. Temos é de falar dos vivos, que não são reconhecidos por aqui."

Segundo Carrió, o luto de Cristina não passa de "teatro". "A presidente toda hora fala sobre a "presença" de (Néstor) Kirchner. Ela diz que ele está entre nós, que nos observa lá de cima. Isso é muito de mau gosto. Faz com que a Argentina pareça filme do (cineasta espanhol) Pedro Almodóvar". disse.

A socióloga Beatriz Sarlo, autora do best-seller A audácia e o Cálculo, que disseca a estrutura de poder do casal Kirchner, afirmou ao Estado que "a morte de (Néstor) Kirchner é uma bênção que a história terá de revisar não em termos pessoais, mas em termos políticos".

"Essa morte criou uma nova imagem da presidência". Segundo Sarlo, a presidente parece ter "ataques espíritas".

O filósofo Juan José Sebreli disse que o governo "sabe usar muito bem o mise-en-scène, como foi o caso do velório de Kirchner, e mais ainda, com o uso da morte, uma das obsessões dos argentinos". "Graças à morte de Kirchner a imagem pública de Cristina mudou. A mesma coisa ocorre com Ricardo Alfonsín, que pôde ser candidato a presidente graças à morte de seu pai, o ex-presidente Raúl Alfonsín, cuja figura foi exaltada a partir de seu velório. A mania de morte é usada por todos os partidos políticos na Argentina. Mas o peronismo possui uma capacidade maior."

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