Presidente paquistanês impõe estado de emergência e coloca tropas nas ruas

Musharraf afirma que medida é resposta ao aumento do terrorismo e à ?interferência? do Judiciário no governo

O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

O presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, impôs ontem estado de emergência e suspendeu a vigência da Constituição no país. O anúncio foi feito pela televisão estatal, pouco depois de todas as outras emissoras paquistanesas terem sido tiradas do ar. O Exército tomou as ruas de Islamabad e as linhas telefônicas foram cortadas. Em Karachi, no sul do país, testemunhas disseram ter ouvido trocas de tiros.De acordo com um comunicado oficial, a medida responderia a "um visível aumento das atividades dos extremistas e de ataques terroristas", além de uma "crescente interferência" do Judiciário no governo. "O Paquistão chegou num ponto perigoso", disse Musharraf em um pronunciamento na TV . " O terrorismo e o extremismo estão no limite e alguns membros do Judiciário trabalham contra os poderes Executivo e Legislativo na luta para solucionar os problemas."A decisão foi tomada num momento em que a Suprema Corte estava julgando um processo sobre a validade da reeleição de Musharraf, em outubro, para um novo mandato presidencial de cinco anos. Especula-se que o estado de exceção também seja parte de uma estratégia para adiar as eleições parlamentares de janeiro, nas quais Musharraf, segundo pesquisas, poderia perder sua maioria legislativa. Segundo o decreto do estado de exceção, o Parlamento e os Legislativos regionais atuais continuarão em suas funções. Os meios de comunicação foram proibidos de veicular "informações difamatórias" sobre qualquer membro do governo ou do Exército ou publicar fotos de vítimas do terrorismo. O chefe da Suprema Corte, o juiz opositor Iftikhar Chaudhry, e seus sete colegas declararam ilegal o estado de emergência. Logo em seguida, o governo comunicou a Chaudhry que "seus serviços não serão mais necessários". O tribunal e as casas de alguns juízes foram cercados pelas tropas. O próprio Chaudhry saiu escoltado por policiais e Musharraf apressou-se em apontar outro juiz, Hameed Dogar, para a presidência da Suprema Corte. Não foi a primeira vez que Chaudhry foi destituído. Em março, o presidente o afastou alegando abuso de poder, o que provocou protestos em todo o Paquistão. O juiz só foi restituído em julho, após uma longa disputa com Musharraf. PRISÃO DE OPOSITORESNo início da noite, Aitzaz Ahsa, conhecido advogado e líder opositor, foi preso. "Eles me entregaram uma ordem de detenção por 30 dias", disse Ahsa, responsável pela abertura do processo, questionando a constitucionalidade da reeleição de Musharraf. Imran Khan, líder do opositor Partido do Movimento pela Justiça, também denunciou que estava sob prisão domiciliar em Lahore.A líder do principal partido de oposição, a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, estava em Dubai visitando familiares quando o estado de emergência foi decretado e voltou imediatamente para o Paquistão. "Condenamos essa lei marcial", disse, horas depois de desembarcar no aeroporto de Karachi.Para ela, o Paquistão avança em direção ao recrudescimento de uma ditadura. "Planejo me encontrar com outros líderes políticos para discutir um plano de ação e reverter a suspensão da Constituição", afirmou. Segundo alguns relatos, cerca de 100 policiais e soldados cercavam a casa de Benazir, que retornou de um exílio de oito anos no mês passado, após um acordo com Musharraf. Na ocasião, um ataque suicida contra sua comitiva em Karachi deixou cerca de 140 mortos. Ela não se feriu. Benazhir alertou na quarta-feira, quando já circulavam rumores sobre a possibilidade de ser decretado estado de exceção, que haveria grandes protestos caso isso ocorresse. Ontem, nas primeiras horas do estado de exceção, centenas de pessoas saíram às ruas de Islamabad. Os EUA e outros países ocidentais também haviam alertado Musharraf - seu aliado na guerra ao terror - de que a decisão poderia colocar em risco o processo de transição para a democracia no país. GOLPE MILITARMusharraf chegou ao poder em 1999 por meio de um golpe militar, prometendo trazer a "verdadeira" democracia ao Paquistão. Eleito em 2002 e reeleito no mês passado, ele insiste em permanecer como chefe do Exército - decisão contestada pelos opositores. O general sofre pressão dos EUA para combater os militantes do Taleban e da Al-Qaeda, que estariam se reagrupando nas áreas tribais do país. O estado de emergência serviria para reafirmar a autoridade do presidente, colocada em xeque nos últimos meses por grupos opositores e pela escalada da violência dos radicais islâmicos - que se opõem à aliança de Musharraf com os EUA na guerra ao terror.

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