Presidente pró-China é reeleito em Taiwan

Vitória de Ma Ying-jeou, que obteve 52% dos votos, confirma apoio à sua política de aproximação com Pequim, que trouxe benefícios econômicos à ilha

Cláudia Trevisan, enviada especial,

14 de janeiro de 2012 | 15h51

 Ma Ying-jeou, líder do Kuomintang, foi reeleito nesse sábado, 14, presidente de Taiwan com 52% dos votos, em um sinal de aprovação de sua política de aproximação com a China, que levou o relacionamento entre a ilha e o continente ao momento de maior tranquilidade das últimas seis décadas.

A expectativa dos analistas era de que a disputa seria apertada, mas Ma venceu com uma vantagem surpreendente de quase 800 mil votos em relação à candidata de oposição, Tsai Ing-wen, do Partido Progressista Democrático (PPD), preferida por 46% dos eleitores.

A reeleição folgada de Ma também significou uma vitória para o presidente da China, Hu Jintao, que defendeu do outro lado do estreito de Taiwan a política conciliadora que levou ao fortalecimento dos laços econômicos entre a ilha e o continente.

O bom clima no relacionamento de Pequim com Taipé será um dos principais legados de Hu Jintao, que deixa a liderança do Partido Comunista no fim deste ano e transfere a presidência da China a seu sucessor em março de 2013.

"Se Tsai ganhasse, isso fortaleceria a ala ‘linha-dura’ do Exército de Libertação Popular, favorável a uma política mais agressiva no relacionamento com Taiwan", disse Yen Chen-shen, diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Nacional Chengchi.

Os votos que garantiram a liderança folgada de Ma saíram do terceiro candidato, James Soong, um ex-integrante do Kuomintang que recebeu menos de 3% dos votos, quando as pesquisas indicavam que ele tinha preferência de 7% do eleitorado.

Pouco depois das 20h, Ma fez seu discurso da vitória, para milhares de pessoas que enfrentaram a chuva em frente à sede do Kuomintang. O presidente elogiou sua oponente e prometeu "relações harmoniosas" com a China, ecoando o slogan de "sociedade harmoniosa" de Hu Jintao.

"A vitória mostra que para muitas pessoas a economia é mais importante que a questão da identidade", disse Yen Chen-shen.

Tsai é favorável à independência de Taiwan em relação à China e acredita que a política do atual presidente representa um risco à soberania da ilha. Com cerca de 1.000 mísseis apontados para Taiwan, Pequim ameaça ir à guerra caso a ilha declare formalmente sua independência.

Relações econômicas

Em seus quatro anos de governo, Ma optou por intensificar o relacionamento econômico com a China e assinou uma série de acordos que facilitaram o transporte, a comunicação e os investimentos entre os dois lados do estreito de Taiwan.

Depois de quase seis décadas de interrupção, os voos diretos entre o continente e a ilha foram retomados em 2008, acabando com a necessidade de conexão em Hong Kong ou Macau para os que realizavam a viagem.

A mudança beneficiou os milhares de empresários de Taiwan que transferiram suas linhas de montagem para o outro lado do estreito e investiram cerca de US$ 150 bilhões no continente desde 1998.

Temendo a derrota de Ma, os donos das principais empresas do país declararam apoio ao presidente nos últimos dias e mobilizaram seus empregados taiwaneses na China para votarem na eleição de ontem.

"Se a eleição levar a qualquer mudança ou incerteza, todo mundo terá de pagar o preço de suas próprias decisões", declarou ontem Terry Gou, dono da Foxconn, a maior fabricante de eletrônicos do mundo, eleitor do Kuomintang.

"A vitória de Tsai traria incerteza e ninguém quer isso", observou Zhan Linzheng, professora da Universidade de Taiwan.

Enquanto os eleitores do Kuomintang consideram a estabilidade do relacionamento com a China essencial para o crescimento, os que escolheram Tsai são favoráveis à independência e temem que a aproximação com a China ameace as instituições democráticas da ilha.

‘Consenso’

A discussão em torno da existência de "uma só" China esteve no centro da eleição de Taiwan e para muitos foi decisiva para a vitória folgada de Ma Ying-jeou. O presidente defende o chamado "Consenso de 1992", que dá a base para as negociações entre a ilha e o continente e foi rejeitado pela candidata de oposição.

Costurado por Taipé e Pequim em 1992, o "consenso" diz que existe "só uma China", mas permite que cada lado interprete o conceito como quiser. Para o Partido Comunista, a expressão se refere à República Popular da China fundada em 1949, enquanto para o Kuomintang, é a República da China criada em 1911 e "transferida" para a ilha depois da derrota dos nacionalistas na guerra civil com os comunistas.

Taiwan já abandonou a antiga pretensão do Kuomintang de reconquistar a China continental, mas o pacto faz parte da manutenção do "status quo", que garante a estabilidade no relacionamento entre os dois lados.

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