Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

‘Presidente quer evitar derrota política e econômica’

Analista político acredita que situação de Cartes e de seu partido fica mais delicada com debates sobre lei do tabaco

Entrevista com

Juan Cálcenas, analista político

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 05h00

A situação do presidente paraguaio, Horacio Cartes, e de seus partidários, com a proximidade da eleição presidencial, ficou mais delicada depois da repercussão política que ganhou o debate sobre a lei do tabaco no Paraguai. O próprio futuro da lei é questionado. 

+ Cartes luta contra lei que combate o contrabando de cigarros no Paraguai

“É incerto o que vai acontecer. Os dois candidatos mais fortes à presidência concordam em aumentar esse imposto (do cigarro)”, afirma o analista político Juan Cálcenas, um dos autores do livro Emenda a sangue e fogo. Sombras de uma noite de março, sobre as manifestações que ocorreram no Paraguai no ano passado, quando parte do Congresso foi incendiada após uma tentativa de Cartes de aprovar a reeleição. A obra deve ser publicada em março.

Para Cálcenas, a divisão existente entre os partidário de Cartes deve aumentar também em razão das primárias do Partido Colorado, quando o candidato do presidente perdeu. Ele argumenta que agora muitos devem tomar as próximas decisões de acordo com as diretrizes de Mario Abdo Benítez, candidato à presidência do partido.

Qual é o impacto direto da lei sobre tabaco para o presidente Cartes?

O primeiro impacto é econômico. Uma de suas maiores fontes de renda é da atividade de empresário. A Tabesa deve ser a maior empresa do grupo Cartes ou a que mais ganha dinheiro. A diferença de 16% a 30% no imposto vai afetar o bolso de Cartes. Ele diz que muitas pessoas ficarão sem trabalho, mas não acredito que seja isso. Além disso, a maior parte da produção da Tabesa vai para o Brasil como contrabando. O segundo impacto é a derrota política, se a lei passar.

O senhor acredita que a lei será aprovada às vésperas das eleições?

Acredito que seja muito difícil enquanto ele for presidente, porque ele tem o poder de decisão de sancionar ou não o projeto aprovado no Congresso. É incerto o que vai acontecer. Os dois candidatos mais fortes à presidência, Mario Abdo (Benítez), do Partido Colorado, e Efraín Alegre, do Partido Liberal, concordam em aumentar esse imposto. Mas, se os colorados ganharem, é possível que Cartes faça uma negociação e a lei não passe.

Como fica a situação do ministro de Saúde depois das declarações sobre a lei (o político minimizou os efeitos do tabaco na incidência de câncer de pulmão)?

Isso causou uma enorme reação da área médica. Acredito que dez associações protestaram. O Ministério da Saúde afirmou que, coincidentemente, os números de como o tabaco afeta as pessoas no Paraguai foram divulgados na época da discussão do aumento do imposto, mas não somos tontos. Houve um lobby do governo contra o aumento do imposto. O ministro da Saúde tenta uma candidatura ao Senado – nossa eleição é por meio de listas – e ele está em uma posição complicada porque está na 15.ª colocação da lista e geralmente são eleitos 16 ou 17. Mas essas colocações não estão fixas. Por isso, o ministro pode estar pensando em garantir um espaço ou permanecer como ministro até o fim deste governo.

Como está a situação política dentro do cartismo?

Há uma divisão. Antes de 17 de dezembro (quando ocorreram as primárias do Partido Colorado), havia uma obediência a Cartes. São 45 senadores e 15 eram obedientes ao presidente. Antes das primárias, todos votavam pelas diretrizes de Cartes, em bloco, mas acabaram perdendo. Agora, já não há unidade na bancada cartista. Agora, calcula-se que apenas dez continuem com Cartes. E isso pode piorar porque, com a derrota do candidato de Cartes nas primárias, muitos passaram para o lado do que era seu opositor, Mario Abdo Benítez.

E como fica a situação política no país, considerando que, no ano passado, houve uma grande incerteza após os protestos sobre a reeleição presidencial?

 queima do Congresso deu medo porque ocorreu uma repressão muito grande nas ruas, por parte da polícia. Muitas pessoas contavam que nem na ditadura viram tanta prepotência e violência. A situação ficou mais calma após a tentativa de criar uma mesa de diálogo por parte de Cartes, que acabou sendo um fracasso. O ambiente político hoje é incerto. [

 

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