Presidente russo não é o pior que poderia acontecer ao país

ANÁLISE: BLOOMBERG NEWS

O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2014 | 02h02

Vladimir Putin talvez não esteja muito preocupado com as repercussões econômicas de seu impasse com o Ocidente, mas o restante do mundo deveria se preocupar: o presidente russo está conduzindo seu país para uma situação que pode resultar num regime muito pior do que o seu. As sanções e os preços em queda do petróleo pioraram, e muito, os prognósticos para uma economia já em dificuldades antes de a Rússia enviar tropas à Ucrânia.

O rublo está em queda livre, o governo tem gasto bilhões de dólares para salvar os bancos e projetos importantes - como o planejado gasoduto para a Europa, o South Stream, foram anulados ou estão suspensos. Esta semana, um membro do alto escalão do governo disse que a Rússia deve descambar para uma recessão profunda no primeiro trimestre do próximo ano.

No curto prazo, Putin parece bem equipado para sobreviver ao mal-estar geral. Suas aventuras militares e a propaganda aumentaram seus índices de aprovação. E, até certo ponto, mesmo as sanções são usadas em seu benefício, permitindo a ele enfatizar que o sofrimento econômico é uma consequência necessária da resistência ao Ocidente e não resultado da sua péssima administração.

Com um só golpe, Putin reformulou o contrato social, justificando o controle do poder do Kremlin não com a promessa de prosperidade, mas com um apelo ao orgulho nacionalista. No entanto, no longo prazo, a posição de Putin é mais precária. Sua capacidade para apaziguar os soldados, os funcionários públicos e os pensionistas - e distribuir bilhões de dólares em contratos para aliados poderosos - depende muito das receitas do gás e do petróleo, que representam cerca de metade do orçamento federal.

Embora o governo tenha reservado quase US$ 90 bilhões como garantia contra uma queda dos preços dessas commodities, eles agora estão tão baixos que a Rússia facilmente poderá gastar as reservas num período de vacas magras em alguns anos. Se a tomada de empréstimos continuar difícil, Putin terá uma tarefa complicada de cortar gastos e elevar impostos de modo que a Rússia consiga sobreviver.

A volta de Putin à política da época da Guerra Fria só reduzirá as chances de uma recuperação sólida e uma diversificação econômica que acabe com a dependência do petróleo. Os indivíduos formados, com capacidade de inovação, necessários para criar uma economia vibrante, não querem viver num Estado marginalizado onde não podem se expressar livremente ou escolher seus líderes - e onde tudo o que construírem pode ser roubado por autoridades corruptas.

De 2011 a 2013, os primeiros dois anos deste último mandato de Putin, a migração anual quintuplicou e o número de empresários ativos caiu 13%. Por outro lado, Putin tem incentivado uma onda de nacionalismo perigosa que talvez não consiga controlar. A intromissão de Moscou na Ucrânia ajudou a transformar em heróis figuras repugnantes, como Igor Girkin (aliás, Igor Strelkov) líder da rebelião pró-Rússia, que se apresenta como combatente em uma guerra contra um Ocidente moralmente corrupto. Alguns nacionalistas radicais consideram Girkin um rival potencial de Putin.

Quanto mais tempo a tensão econômica durar, maiores serão as chances de a oposição a Putin se tornar mais virulenta. Nesse momento, a menos que alguma facção da elite da Rússia consiga remover Putin e realizar ações livres e imparciais, a revolução será o caminho mais provável para uma mudança de regime.

Os moscovitas da classe média, que lideraram as rebeliões de 2011 e 2012, fracassaram porque poucos estavam desesperados o bastante a ponto de arriscar suas vidas. Da próxima vez, o resultado poderá ser diferente - ou muito pior. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.