Presidente segue passos de Perón na guerra contra a imprensa

Ex-presidente argentino fez de tudo para fechar o jornal 'La Prensa', que era crítico a seu governo assim como o 'Clarín' hoje

BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h06

"Fui derrubado do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor e ganhei as eleições quanto tinha todos eles contra." A frase, de 1974, é de Juan Domingo Perón, que, pouco antes de morrer, fez um balanço sobre sua relação com a mídia.

Ele se referia a sua queda, em 1955, quando mantinha controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e à vitoriosa eleição de 1973, na qual bateu recordes de votação quando a mídia era majoritariamente contrária.

Na Argentina, o caso tem sido lembrado desde a aprovação da Lei de Mídia, já que, segundo analistas, a presidente Cristina Kirchner, em lugar da tolerância dos últimos anos de Perón, repete a ambição de ter o controle total da mídia que havia caracterizado o fundador do peronismo nos anos 40.

Da mesma forma que Cristina tenta destruir o poder do Grupo Clarín, a maior holding multimídia argentina, Perón colocou várias restrições à mídia privada e armou uma superestrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários "amigáveis".

Perón, em seus primeiros dois governos, contava com ampla rede de comunicação que divulgava as notícias favoráveis e omitia os assuntos inconvenientes. Ele contava com o Alea S.A., monopólio estatal criado em 1951 apoiado por três grupos nominalmente privados, mas diretamente comandados pelo governo: a Editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a Editora La Razón (que publicava o jornal La Razón).

A primeira estratégia de Perón em relação aos meios de comunicação foi a de defender-se das críticas. Mas, pouco tempo depois de chegar ao poder, ele concluiu que a defesa não era suficiente e começou a pressionar os donos de meios de comunicação a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Boa parte da pressão era feita pela Comissão Bicameral Investigadora de Atividades Antiargentinas.

A "mãe de todas as batalhas", segundo Perón, foi contra o jornal La Prensa, da família Paz, definido pela revista americana Time como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época, com uma tiragem de 480 mil exemplares.

O jornal foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes foram pressionados e o racionamento de papel encolheu o diário de 40 para apenas 12 páginas.

Tal como o Clarín hoje, La Prensa era alvo de operações sem justificativas do fisco argentino. Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o Democracia, jornal do Estado argentino. Em 1951, o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico, que sobreviveu vendendo exemplares em sua sede.

La Prensa resistia, apesar da guerra. Sem conseguir colocar o jornal de joelhos, Perón, com a aprovação do Parlamento de maioria peronista, ordenou o confisco do jornal, que foi entregue à Confederação-Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo era contra La Prensa porque o jornal "era contra operários e peronistas".

O historiador Luis Alberto Romero afirmou ao Estado que a liberdade de expressão nos tempos de Perón sofria um amplo leque de problemas, "desde o fechamento de jornais, passando pelo confisco e estatização dos meios de comunicação, até a autocensura".

Romero relata que seu pai, o historiador José Luis Romero, colaborador do La Nación, dizia que o estilo jornalístico desse periódico estava "intrincado". "Mas essa era a única forma de dizer certas coisas, por meio de elipses, evitando ser explícito, para driblar problemas com Perón, que já havia demonstrado sua determinação em fechar o jornal." / A.P.

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