Presidente teme o advento de uma 'Primavera Russa'

Análise: Gilles Lapouge

É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h04

Uma multidão de homens e mulheres toma conta das ruas para denunciar Vladimir Putin, seu autoritarismo e a fraude com a qual seu partido, Rússia Unida, venceu as eleições legislativas. "Rússia Unida, partido de ladrões e escroques", sãos slogans estampados nas camisetas multicoloridas. Putin fez de tudo para os opositores ficarem em casa. Lançou seus juízes e policiais armados contra todos os organizadores da manifestação. Uma brutalidade ordinária. Portas de apartamentos foram arrombadas. Escritórios foram pilhados. Telefones, máquinas fotográficas, documentos e pen drives, apreendidos.

E todos os chefes da oposição foram intimados pela polícia a comparecer à delegacia na hora exata das manifestações de rua. Há alguns dias, Putin elevou a alguns milhares de euros as multas previstas para casos de manifestações não autorizadas.

A intimidação fracassou. A disposição dos revoltados aumentou. Durante toda a segunda-feira o Twitter difundiu um único lema, mais feroz: "Salve 1937", uma lembrança estrondosa dos "expurgos stalinistas" de 1937.

Entre as pessoas inquiridas, está a ex-apresentadora de TV Ksenia Sobchak. Também foram intimados Alexei Navalni, o célebre blogueiro, Serguei Usaltsov, líder da Frente de Esquerda, e Ilia Ilachine, do Solidariedade.

Essas manifestações e a sua amplitude confirmam que Putin, por muito tempo senhor absoluto e respeitado, entrou num declínio que ele quer evitar por meio de medidas equivocadas. Mas não é só. A violência da repressão policial nos leva a uma segunda tese: Putin, o homem de ferro, o "macho dominante" começa a ter medo. Temos talvez uma explicação para o apoio dado por Putin ao tirano da Síria, Bashar Assad, que há mais de um ano vem matando seu povo. E Putin insiste em bloquear na ONU qualquer resolução que possa prejudicar o poder do tirano sírio.

Putin teme que o descontentamento do povo russo alcance um dia, próximo ou distante, a mesma intensidade da cólera dos sírios amordaçados por Bashar Assad. Sabemos que Putin reagiu muito mal à chamada Primavera Árabe. Compreendemos porque, hoje, ele teme uma "Primavera Russa". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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