Presidentes atropelam diplomacia na Unasul

Transmissão ao vivo da cúpula de Bariloche mostrou efeitos do ?superpresidencialismo? sul-americano

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O encontro da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), na sexta-feira, em Bariloche, mostrou os estragos da "superdiplomacia presidencial" - uma prática comum na América do Sul, onde os presidentes assumem a linha de frente da política exterior, discutem publicamente seus problemas e vulgarizam o que um regime presidencialista teria de mais eficaz: a palavra do próprio presidente."Esta é uma característica sul-americana que faz com que tudo avance mais rápido, tanto os acordos quanto os desacordos", disse ao Estado Janina Onuki, do Instituto de Relações Internacionais da USP. "Desde a criação do Mercosul, tudo depende da diplomacia presidencial. Essa dependência é mais negativa do que positiva."Um mês antes da reunião de Bariloche, os presidentes da Colômbia, Venezuela, Bolívia e Equador deram início a um bate-boca diário pela imprensa sobre o acordo que prevê o uso de bases militares colombianas pelos EUA."Os interesses de Estado não deveriam ser confundidos com interesses de governo. Mas quando os presidentes apostam na diplomacia do microfone, o que prevalece é o protagonismo pessoal, o interesse menor", disse Carlos Luna, professor de Relações Internacionais da Universidade Central da Venezuela.O clima da reunião de sexta-feira - onde trocas de acusação e ironias foram transmitidas ao vivo pela TV - contrasta com o apreço obsessivo que os diplomatas de carreira têm na escolha de gestos e palavras.Frequentemente, encontros internacionais são concluídos com declarações amenas, fotos coletivas e sorrisos, apesar das tensões latentes. Os documentos finais são negociados entre técnicos e assessores - muitas vezes, antes mesmo do encontro oficial ter início - e só depois recebem a assinatura dos presidentes. Na Unasul, nada disso aconteceu.GRAVIDADEMas se, por um lado, o superprotagonismo presidencial queima etapas do ritual diplomático, por outro mostra a gravidade da crise atual."Dessa vez, a crise é muito grave. Esse exacerbado protagonismo presidencial não foi à toa", disse a brasileira Mônica Hirst, do Departamento de Ciência Política e Estudos Internacionais da Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires."Pensava-se que o projeto de integração regional da Unasul pudesse conviver com o laço estreito que existe entre Washington e Bogotá. Mas ficou claro que são duas coisas que não convivem."Hirst acredita, entretanto, que o papel desempenhado pelo Chile e pelo Brasil durante a cúpula pode acabar abrindo a porta para a construção de um eixo moderador que salve o projeto de integração regional da "crônica de uma morte anunciada" que se viu em Bariloche."

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