Preso aos 15 anos, Khadr vai a julgamento de cartas marcadas

'Criança-soldado', jovem de nacionalidade canadense senta no banco dos réus do tribunal militar

, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2010 | 00h00

Omar Khadr tapa os olhos, enquanto a promotoria exibe no tribunal militar de Guantánamo um vídeo em que ele aparece sobre um típico tapete afegão ligando detonadores a explosivos. À época, ele tinha 15 anos. "Se Alá quiser, mataremos muitos americanos", diz seu instrutor ao fundo da gravação, feita em 2002.

Cidadão canadense e filho de um radical egípcio, Khadr é acusado de ter assassinado, meses após o vídeo ser registrado, um militar americano no Afeganistão. Para especialistas, o caso transforma Guantánamo - sob os olhos do presidente Barack Obama - no primeiro lugar em que um menor de idade é acusado de crimes de guerra.

Reformulados por Obama, os novos julgamentos estão imersos nas contradições que marcam a história da prisão em território cubano. O manual com os procedimentos dessas cortes, por exemplo, foi publicado horas antes do início da audiência de Khadr. As provas que os advogados de defesa pretendem apresentar devem ser pré-aprovadas pela acusação. E tanto o juiz quanto a promotoria são apontados pelo Pentágono.

O canadense compareceu ao primeiro dia de sua audiência. No segundo, ele se recusou a usar uma venda para ser transportado da prisão ao tribunal e, então, permaneceu em sua cela. Khadr foi avisado pelo juiz que a corte seguiria sem sua presença. Ele consentiu, seguindo ausente nos outros quatro dias.

Combate. Em julho de 2002, forças dos EUA entraram em confronto com militantes na cidade afegã de Khost. Quando as armas silenciaram, os soldados se aproximaram dos escombros e foram recebidos com uma granada, que matou um sargento. Embora gravemente ferido, Khadr era o único sobrevivente no local e foi identificado como o militante que atirou o explosivo.

"Ele tinha dois furos de bala no peito e usava uma roupa típica afegã", relata à corte a testemunha "Coronel W", que por razões de segurança não foi identificada. O fato de não que Khadr não estava fardado e propriamente identificado constitui um crime de guerra, diz a acusação.

Capturado, ele foi para a base de Bagram, no Afeganistão, onde teria sido torturado. Depois, enviaram-no para Guantánamo.

Um longo debate sobre o status do canadense teve início. A ONU diz que ele é uma "criança-soldado", pois foi levado por seu pai ao Afeganistão quando tinha dez anos. A guerra, assim, não seria uma escolha de Khadr. Ele chegou a morar com Osama bin Laden no complexo da cidade afegã de Jalalabad e lá conheceu parte da cúpula da Al-Qaeda.

"Não é costume processar menores por crimes de guerra", disse ao Estado David Crane, ex-procurador-chefe do Tribunal da ONU para Serra Leoa. "Crianças não têm a motivação para cometer crimes de guerra." Sob esse argumento, Crane decidiu não processar "crianças-soldados" de Serra Leoa. Ele defende que a mesma lógica se aplica ao caso de Khadr.

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