Preso de Guantánamo diz estar sendo alimentado à força

O kwuaitiano Fawzi al-Odah, que está preso na base americana de Guantánamo, em Cuba, deu uma entrevista exclusiva à BBC na qual conta ter sido vítima de atos de tortura. No relato, transmitido nesta sexta-feira, Al-Odah disse que foi forçado a se alimentar durante uma greve de fome que fez em dezembro, junto com outros 83 detentos. Segundo Al-Odah, os prisioneiros eram amarrados a uma cadeira e alimentados à força. Para isso, eles tinham um tubo grosso introduzido até a garganta, três vezes por dia. A prática é considerada uma forma de tortura pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, mas o Departamento de Estado americano rejeita essa definição e negou que o governo esteja realizando tais atos em Guantánamo. ´Isolado´ A BBC apresentou perguntas a Fawzi al-Odah através de seu advogado, Tom Wilner, que teve acesso ao presídio, mas não foi possível contestar as respostas dadas. "Primeiro eles tiraram meus pertences", disse o prisioneiro em relação a como as autoridades reagiram à sua greve de fome. "Depois me deixaram isolado durante dez dias." "Eles entravam e liam uma ordem dizendo que se eu me recusasse a comer, eu seria colocado na cadeira (para alimentação forçada)." Al-Odah contou que, três vezes por dia, os detentos eram obrigados a tomar laxantes e, em seguida, eram amarrados "na cadeira", onde eram forçados a se alimentar através de um tubo. "Um homem disse que foi torturado na Arábia Saudita e que isso era pior do que qualquer coisa que aconteceu lá", afirmou ele. Procurada pela BBC, a representante americana Colleen Graffey disse que todos os detidos podem ter revisões regulares de sua situação e que lhes é oferecida a oportunidade de renunciar à violência. Nova lei As declarações de Al-Odah são feitas num momento em que um juiz dos Estados Unidos se prepara para analisar um pedido para proibir esta prática. O caso foi levado à Justiça em nome de Mohammed Bawazir, do Iêmen, que também vem sendo mantido na base desde 2002. Este é o primeiro teste de uma nova legislação que proíbe explicitamente a tortura de suspeitos de "terrorismo", sancionada em dezembro pelo presidente americano George W. Bush. O correspondente da BBC em Washington, Justin Webb, disse que a ação judicial contra a alimentação forçada pode ser um tiro no escuro. Segundo ele, pelos termos da nova legislação, não está sequer claro se os tribunais têm o direito de analisar este caso. Os advogados de Bawazir disseram que ele também foi forçado a se alimentar. Ele encerrou sua greve de fome para impedir o que considera uma tortura. Os advogados argumentam que as novas normas antitortura que Bush sancionou em dezembro, depois de oposição inicial, tornam esta prática ilegal.

Agencia Estado,

03 Março 2006 | 16h33

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