AP Photo/Fernando Llano
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Preso e perseguido, mentor de Juan Guaidó é quem dá as cartas

Leopoldo López apadrinhou há mais de uma década o atual presidente da Assembleia Nacional e autodeclarado presidente interino da Venezuela; amigos dizem que os dois conversam constantemente

Andrew Rosati, Bloomberg

01 Fevereiro 2019 | 10h09

CARACAS - Em duas semanas, Juan Guaidó se tornou o símbolo internacional da revolta venezuelana, projetando uma imagem de alguém sereno e austero.

Mas sua ascensão atípica se deve em grande parte ao seu mentor, o líder opositor Leopoldo López, que da sala de estar de sua casa unificou e orquestrou o movimento apesar de cumprir prisão domiciliar, que o impede de fazer política pessoalmente.

"Neste momento, não acho que dê para separar os dois. Eles são a mesma coisa", diz Luis Vicente Leon, diretor da empresa de pesquisa de Caracas, Datanálisis.

O serviço de inteligência venezuelano monitora a casa de López o tempo todo, ele usa uma tornozeleira eletrônica para rastreá-lo e está proibido de falar com repórteres. 

Aliados e pessoas de sua confiança dizem que o ex-candidato presidencial de 47 anos, no entanto, realiza reuniões de planejamento e dirige ativistas. Seu trabalho garantiu a ascensão de Guaidó de congressista pouco conhecido ao principal nome a desafiar o autoritário presidente Nicolas Maduro. Eles afirmam que López manteve contato constante enquanto Guaidó reavivou os protestos de rua e reuniu aliados internacionais.

O surgimento de Guaidó à frente de uma coalizão organizada é uma ação direta de López, um ativista de longa data que permaneceu na Venezuela quando poderia ter fugido - e passou mais de três anos em uma prisão militar. Mais importante ainda, o conselho de López ajudou Guaidó a não só evitar a prisão por um regime socialista famoso por prender e torturar, mas também a se tornar o inimigo instantâneo de Maduro.

Para promover Guaidó, López usou chamadas pelo Skype, mensagem criptografadas e reuniões cara a cara em sua casa em Caracas, no rico bairro caraquenho de Chacao, onde ele já foi prefeito.

É uma existência restrita para o descendente de uma família que data da fundação do país, que estudou na Universidade Harvard e é abençoado com a aparência de ídolo da matinê e sempre foi cheio de ambições. Fãs mais fervorosos de López o descrevem como um cruzamento sul-americano entre John Kennedy e Nelson Mandela. Seus críticos o chamam de um sangue azul inclinado ao poder. Ele entrou em conflito não só com o regime chavista, mas também com aliados que considera instáveis.

Em 2015, depois de anos de oposição ferrenha, López foi condenado a quase 14 anos de prisão por acusações que incluem incitar a violência. Ele foi transferido para prisão domiciliar em julho de 2017 sob ordens de ficar em silêncio.

 

Mas enquanto seu país, que já foi uma rica nação petroleira, aprofundava sua crise econômica, assim como a miséria e a fome, López continuava atento as acontecimentos. Apesar de não poder deixar sua casa, pessoas próximas dizem que ele está em contato constante com os chefes de estado, membros de seu partido Voluntad Popular e ativistas.

"Em casa, ele trabalha com toda a oposição, com todo mundo", disse sua mulher, Lilian Tintori, em entrevista nesta semana. "Ele conversa com Juan Guaidó, que agora é o presidente, com todos os membros do Voluntad Popular e também com os membros dos outros partidos - os maiores e o menores. Ele se encarregou de unir a oposição."

López apadrinhou Guaidó mais de uma década atrás durante protestos contra Hugo Chávez após o ex-presidente silenciar críticos ao se recusar a renovar a licença da emissora de TV mais popular do país. Em 2009, eles formaram o Voluntad Popular, conhecido pelas táticas linha-dura, recusando-se a negociar com o governo e convocando seus partidários para as ruas.

Nos últimos meses, essa relação foi fundamental para Guaidó se tornar presidente da Assembleia Nacional. Graças a um acordo de partilha de poder entre os quatro maiores partidos opositores, chegou a vez de o Voluntad Popular indicar seu nome para ocupar o cargo. López deu sua bênção a Guaidó (o partido tinha poucas opções, já que muitos de seus quadros estão presos ou se exilaram).

Dias depois, Guaidó disse que uma disposição constitucional fazia dele o chefe de Estado em exercício do país porque Maduro foi reeleito em um processo fraudado. Nas semanas seguintes, EUA e os países vizinhos da América Latina o reconheceram como o líder da Venezuela e fizeram dele o centro de um esforço conjunto para derrubar Maduro.

Guaidó disse na quarta-feira que ele e López conversam constantemente.

"Estamos sempre tentando encontrar mecanismos para continuar em contato porque ele não tem autorização para receber visitantes e isso complica a comunicação", disse Guaidó. "Mas estamos sempre em contrato e sempre nos vemos olhos nos olhos."

Atrás das grades, e constantemente na solitária, López nunca abriu mão do controle de seu partido. Ele trabalhou com intermediação de sua família e de seus advogados - enviando mensagens escritas em pedaços de papel e, por vezes, no próprio corpo de sua mulher.

López se tornou uma causa celebre para os grupos defensores de direitos humanos e para governos estrangeiros que há muito criticam o governo Maduro por silenciar críticos. Lilian viajou pelo mundo reunindo-se com líderes como Donald Trump, Angela Merkel e Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA).

No ano passado, ela foi proibida de deixar o país. Apesar disso, diz que mantém contato regular com muitas autoridades, incluindo o senador republicano eleito pela Flórida, Marco Rubio.

"O fato de Juan ter conversado com cerca de 20 chefes de Estado em 20 dias não se deve apenas a seu trabalho", diz o deputado Juan Andrés Mejía, do Voluntad Popular. "Também se deve aos relacionamentos que Leopoldo e Lilian criaram ao longo do tempo."

Mejía disse que Lopez teve que se tornar duro e astuto.

"Leopoldo nunca foi um operador político", diz Mejía. "Ele era um candidato conhecido por abraçar senhoras e beijar bebês. Mas ele teve que se adaptar."

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