Preso no enterro da vó por 'coveiro'

Policiais disfarçados agem em cemitério de Lanús

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE , BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2015 | 02h04

Policiais federais usaram como recurso um disfarce de coveiro para prender em flagrante um adolescente de 16 anos no enterro de sua avó, no município de Lanús, na Grande Buenos Aires.

A operação executada na tarde de terça-feira ganhou destaque ontem nos principais telejornais argentinos com uma versão equivocada: a de que o jovem, procurado pelo assassinado em fevereiro do policial federal Ezequiel Martín Alifraco, tinha se disfarçado de coveiro para se despedir da parente.

"Não foi nada disso. O pivete estava vestido normalmente. Foram os policiais que usaram roupas como as nossas e ficaram esperando, com uma pá, a família se aproximar com o corpo", disse ao Estado Alejandro, de 22 anos, um dos coveiros "oficiais" do cemitério de Lanús, a 30 minutos do centro da cidade cortada pela linha de trens metropolitanos.

Alejandro prefere não dar o sobrenome por precaução. Acha que amigos do adolescente detido - procurado também por um assassinato em outubro - podem querer se vingar de quem realmente abre as sepulturas. Teme virar morador permanente do lugar de trabalho. "Eles sabem que a polícia armou o esquema com a direção do cemitério e eu vivo a só 15 quadras daqui", disse, com a concordância dos companheiros de trabalho. Entre os "escavadores", há um certo desconforto com o que pode ser interpretado como quebra de confiança da categoria.

De acordo com Edgardo García, chefe do departamento de polícia de Lanús, a operação "Cemitério" foi feita com auxílio de escutas telefônicas organizadas em conjunto pela Polícia Federal e a da Província de Buenos Aires. As gravações permitiram saber que o adolescente foragido pretendia ir ao sepultamento da avó, cujo túmulo ontem estava coberto de flores novas, sem qualquer identificação ou data de nascimento.

"No início ele resistiu, mas como estávamos em maioria não conseguiu fugir. Era procurado por ser um dos integrantes de uma gangue muito violenta, cujas ações quase sempre terminavam em morte", disse García ao canal TN.

O adolescente foi encaminhado ao órgão argentino equivalente ao juizado de menores. A Argentina discute a redução da maioridade penal, em boa parte pela criminalidade registrada em regiões com Lanús. Na cidade, predominam casas de classe média baixa, onde o comércio informal tranca calçadas e pequenos roubos são registrados. Nos trens antigos que levam até ela, passageiros estão acostumados a ser alvo de furtos e pedradas.

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