PRESOS DESCREVEM ROTINA DE TORTURA

Eles afirmam que foram obrigados a colocar suas digitais em folhas sem ler ou mesmo em branco

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h02

A família tinha acabado a oração da manhã e estava sentada na sala, quando policiais e "shabiha" ("fantasmas"), como são chamados agentes irregulares do regime, arrombaram a porta e a janela. Perguntaram ao homem de 30 anos onde estavam suas armas. Ele respondeu que não as tinha. "Ataram minhas mãos para trás com algemas de nylon, levaram-me para o carro e começaram a me bater", contou o homem, um dia depois de sair da prisão, onde permaneceu por 53 dias.

Na véspera, ele havia participado do funeral de três manifestantes, da mesquita até o cemitério. Ele conta que foi levado ao subterrâneo de uma prisão e colocado em uma cela pequena com cerca de 60 homens. "Era impossível sentar", conta o homem, que pediu para não ser identificado. "Chamaram-me pelo nome. Sem me dizer nada, três shabiha começaram a me bater." Depois o acusaram de ter tanques e foguetes. "Não sei de onde tiram essas coisas. Mas batem até a gente concordar com o que quiserem." Dentre muitos métodos de tortura, um dos que lhe chamaram a atenção foi o "tashlikh" , um aparelho que aperta o tórax até quase quebrar. Depois, batem nas costas da vítima, para que volte a respirar. Ele diz que também apertavam o pescoço com cordas, quase enforcando. Quatro homens seguravam as mãos e pernas abertas, e batiam nos testículos.

"Vi muitas pessoas penduradas no teto pelos braços durante muitos dias", conta o homem. "Os doentes não recebiam nenhum tratamento. Os agentes diziam que podiam matar 100 pessoas, que não se importavam com nada." Quando os presos iam ao banheiro, no corredor, os carcereiros batiam nas suas cabeças e blasfemavam. "Nem os judeus falariam coisas tão ofensivas de nossa religião", julga o ex-preso. "Falavam que trariam minha irmã e fariam coisas com ela que não posso repetir." Ele diz ter visto meninos de 12 anos presos.

O homem lembra que presos de Homs eram trazidos com feridas expostas, e os agentes aplicavam choques dentro delas, dizendo que fariam o mesmo com eles, se não confessassem. Ele diz que foi forçado a colocar a impressão digital em seis páginas de depoimento, sem saber o que continham ou conteriam: "Algumas tinham coisas escritas, outras estavam em branco."

Ao final de 51 dias, foi transferido para outra prisão. Voltou a ser interrogado, e os novos agentes xingaram os interrogadores anteriores, dizendo que o tinham feito confessar apenas cinco crimes, quando precisavam de dez.

Outro homem, de 28 anos, diz que ficou preso 21 dias. Ele tem formação religiosa e lidera orações em uma mesquita. Saía de uma celebração do Ramadã, o mês sagrado muçulmano, em agosto, quando foi pego por quatro homens que o levaram também para o subterrâneo de uma prisão militar. Quando chegou à prisão, começaram a espancá-lo, dizendo: "Você quer ser presidente, ministro? Não vai sair daqui antes de 20 anos".

Na primeira semana na prisão, ele foi obrigado a ficar de pé e proibido de dormir. Quando o carcereiro que ficava na frente da cela saía, ele recostava a cabeça e cochilava. Os colegas de cela o cutucavam quando o carcereiro voltava. Deitado de barriga no chão, as pernas dobradas, era golpeado nos pés com cassetetes. Depois dessas sessões, não conseguia andar e era carregado pelos colegas de cela para o banheiro do corredor, ao qual tinham direito de ir três vezes por dia, por dois minutos. Ele diz que havia 65 pessoas em sua cela, de 5 metros por 5, e tinham de se revezar de pé e de cócoras.

Ele também relatou que trouxeram um preso de Homs, queimaram sua perna com um isqueiro e disseram que fariam o mesmo com eles. Também teve de colocar as digitais em cinco folhas. Quando perguntou o que diziam, responderam: "Não é da sua conta". Sobre o regime de Bashar Assad, ele diz: "Tenho certeza de que vai cair. Não vamos recuar nem parar, porque morreríamos".

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