Presos usam licenças para apoiar Cristina

Presidiários com permissão para ir a eventos culturais são flagrados em reuniões kirchneristas; opositor diz que detentos ganham regalias na prisão

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h02

Presidiários argentinos com licença para participar de atividades culturais de ressocialização têm engrossado reuniões e comícios favoráveis à presidente Cristina Kirchner.

O jornal Clarín publicou ontem imagens de um dos detentos em um ato kirchnerista e relatou outros casos semelhantes.

Segundo o jornal, o grupo Vatayón Militante, criado pelo diretor das prisões federais da Argentina, Víctor Hortel, tem a missão de organizar eventos culturais dos militantes com a presença de presidiários que têm permissões especiais da Justiça. Ontem, o deputado opositor Carlos Comi disse que Hortel será acusado penalmente, e o ministro da Justiça, Julio Alak, será chamado a dar explicações no Congresso.

A denúncia de que presos estavam usando licenças destinadas exclusivamente à ressocialização para frequentar atos políticos foi feita há poucos dias por Sérgio Schoklender, ex-assessor da líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, que se tornou um opositor de Cristina. Schoklender sustenta que o grupo Vatayón Militante constitui uma tropa de choque controlada pela La Cámpora, denominação da juventude kirchnerista.

O objetivo formal do projeto é levar detentos a oficinas de música, teatro e tango, além de cursos de formação política e pintura em murais. A presença de presidiários em atos políticos do governo e seus aliados, contudo, tem ocorrido sem a autorização dos juízes.

Os integrantes do Vatayón Militante ostentam camisetas com a letra V, de vitória, e um K, a inicial do casal Kirchner). Schoklender afirma que os "camporistas", em troca da participação nos atos políticos, dão aos presidiários escolhidos uma série de privilégios posteriores, entre eles, um maior número de visitas de parentes. Esta informação não foi confirmada pela reportagem do Clarín.

Schoklender esteve preso durante uma década e meia nos anos 80 e início dos 90 pelo assassinato de seus milionários pais, os quais matou com a cumplicidade de seu irmão Pablo, golpeando suas cabeças com uma barra de ferro.

Segundo o Clarín, um dos presidiários famosos que participou de um comício kirchnerista foi o ex-baterista do grupo de rock Callejeros, Eduardo Vázquez, que cumpre pena pelo assassinato de sua esposa, Wanda Tadei.

No dia 24 de junho, Vázquez participou de um ato do Vatayón Militante. Na ocasião, o músico tocou a bateria. Poucos dias antes, no 14 de junho, ele havia sido condenado a 18 anos de prisão. Vázquez - que queimou viva sua mulher - havia sido levado a outro comício, em novembro passado, quando já estava com prisão preventiva decretada. O pai de Wanda, Jorge Taddei, disse ontem à Rádio Mitre, de Buenos Aires, que espera que os responsáveis pelo uso irregular das licenças sejam punidos. "A Constituição diz que a prisão não tem que ser um castigo, mas recuperar o indivíduo. Creio que eles podem sair para atividades relacionadas com a cultura, não com a política", afirmou à rádio.

Defesa. O grupo Vatayón afirma que não recruta militantes nas penitenciárias. Mas admite que na organização pode participar qualquer tipo de pessoa, em liberdade ou não. O ministro da Justiça, Julio Alak, argumentou ontem que "todas as saídas foram autorizadas pela Justiça". Ele não se referiu diretamente à presença dos detentos em atividades ligadas ao governo.

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