Pressa de Sarkozy incomoda coalizão

Aliados surpreendidos em saber que caças já estavam em ação, operações militares elaboradas às pressas e acusações de decisões precipitadas contra o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Assim foram os bastidores do planejamento da coalizão internacional nas horas que antecederam aos ataques contra a Líbia. Em revelações ao Estado, fontes diplomáticas disseram que a operação liderada por Paris foi alvo de duras críticas dos EUA e da Grã-Bretanha.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

O primeiro ataque de jatos franceses ocorreu simplesmente sem que americanos e britânicos tivessem sido informados. Os aliados apenas receberam a notícia quando os caças já sobrevoavam a Líbia. A principal acusação é de que Sarkozy, que havia convocado uma cúpula para aquele dia em Paris, fez de tudo para ser não apenas o líder que anunciaria os ataques, mas quis ter os primeiros equipamentos militares em ação.

Pressionado pelas eleições presidenciais, em 2012, Sarkozy pretende recuperar sua popularidade colocando a França à frente da operação. Por isso, a preparação dos ataques teria começado dias antes. No dia 10, ele recebeu líderes da oposição líbia, numa manobra que causou surpresa no meio diplomático. Dez dias depois, assim que a cúpula foi concluída, Sarkozy deu ordens para que os primeiros ataques fossem iniciados.

O aval já havia sido dado por Washington e Londres, mas ninguém esperava que as primeiras bombas caíssem tão rapidamente. A previsão dos militares era de que os ataques fossem deixados para a noite de sábado. Sarkozy preferiu não esperar. "Essa foi a primeira guerra a começar em plena luz do dia", ironizou um militar europeu.

O que irritou os aliados foi a pouca informação que lhes foi passada pelos franceses. Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, estava em Paris e era favorável ao uso da força, mas Barack Obama estava no Brasil com a presidente Dilma Rousseff e só deu o sinal verde após ser informado que Sarkozy estava pensando em acelerar o ataque.

Quem também ficou irritado com a falta de informações de Paris foi o primeiro-ministro britânico, David Cameron. No Oriente Médio, a Turquia também não gostou de ter ficado de fora da cúpula de Paris e, desde então, insiste por um cessar-fogo.

Na segunda-feira, na reunião da Otan em Bruxelas, mais desencontros. O secretário-geral da aliança atlântica, Anders Rasmussen, criticou a França. Depois de um debate acalorado, a delegação francesa optou por abandonar da sala. Ontem, o chanceler francês, Alain Juppé, disse à Assembleia Nacional que as diferenças seriam amenizadas com a criação de um comitê de coordenação política da coalizão até o fim de semana.

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