Yuri Gripas/EFE
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Pressa em abandonar luta contra coronavírus prejudicou Trump

Durante um período crítico que começou em meados de abril, o presidente Donald Trump e sua equipe se convenceram de que o surto estava desaparecendo

Michael Shear, Noah Weiland, Eric Lipton, Maggie Haberman e David Sanger, New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 12h01

WASHINGTON - Todas as manhãs, às 8 horas, enquanto a crise do novo coronavírus estava desenfreada em abril, Mark Meadows, chefe de gabinete do presidente Donald Trump, convocava um pequeno grupo de assessores para orientar a administração no que havia se tornado um desastre de saúde pública, econômico e político.

Eles viam seu papel imediato como solucionadores de problemas práticos. Produzir mais ventiladores. Arranjar mais equipamentos de proteção individual. Providenciar mais testes.

Mas seu objetivo final era transferir a responsabilidade de liderar a luta contra a pandemia da Casa Branca para os estados. Eles se referiram a isso como “transferência da autoridade para o estado”, e foi o cerne do que se tornaria, ao mesmo tempo, um erro catastrófico de política e uma tentativa de escapar da culpa por uma crise que havia tomado conta do país.

Durante um período crítico que começou em meados de abril, o presidente Donald Trump e sua equipe se convenceram de que o surto estava desaparecendo, que haviam dado aos governos estaduais todos os recursos necessários para conter seus "focos" restantes e que era hora de suavizar o lockdown.

Ao fazer isso, ele ignorou as advertências de que os números continuariam a cair somente se o distanciamento social fosse mantido, apressando-se para reabrir a economia e atender às suas esperanças de reeleição.

Para a homologação científica, eles se voltaram para Deborah Birx, a única profissional de saúde pública do grupo de Meadows. Especialista em doenças infecciosas altamente conceituada, ela era uma fonte constante de notícias otimistas para o presidente e seus assessores, andando pelos corredores com gráficos enfatizando que os surtos estavam diminuindo gradualmente.

Em 11 de abril, ela disse à força-tarefa contra o novo coronavírus no salão de estratégia que o país estava em boas condições para reabrir. Uma mudança significativa aconteceu em seguida, com consequências que continuam a atormentar o país hoje.

Mesmo quando especialistas alertaram que a pandemia estava longe de ser controlada, Trump passou, em questão de dias, a proclamar que só ele tinha autoridade para decidir quando a economia reabriria e pressionaria essa responsabilidade sobre os estados. O governo emitiu diretrizes detalhadas para reabertura, mas quase imediatamente Trump começou a criticar os governadores democratas que não "libertaram" seus estados.

A aposta de Trump de que a crise desapareceria provou estar errada. Mas uma análise da mudança em abril e suas consequências mostra que a abordagem adotada não foi apenas um erro de julgamento. Em vez disso, era uma estratégia deliberada à qual ele se apegava, enquanto surgiam evidências de que o vírus continuaria infectando e matando um grande número de americanos.

Ele e seus principais assessores desdenhariam abertamente da pesquisa científica sobre a doença e dos conselhos de especialistas a respeito de como contê-la, procurariam abafar vozes mais qualificadas como a de Anthony Fauci e continuariam distorcendo a realidade, mesmo quando ficou claro que as esperanças de Trump de uma rápida recuperação na economia e suas perspectivas eleitorais não estavam se materializando.

Agora, entrevistas com mais autoridades dentro do governo e nos estados, e uma revisão de e-mails e documentos, revelam detalhes não relatados anteriormente a respeito de como a Casa Branca colocou o país em seu curso atual durante um período fatídico nesta primavera.

- Deborah foi mais decisiva do que é publicamente conhecido no julgamento dentro da ala oeste de que o vírus estava em uma trajetória descendente. Sua avaliação baseada em um modelo falhou em explicar uma variável vital: como a pressa de Trump em exigir um retorno à vida normal ajudaria a minar o distanciamento social e outras medidas que estavam mantendo os números baixos.

- O presidente rapidamente se sentiu preso por suas próprias diretrizes de reabertura. Os estados precisavam que o número de casos estivesse diminuindo para reabrir, ou pelo menos a taxa de testes positivos. Porém, realizar mais testes significava que os casos totais estavam destinados a aumentar, prejudicando a pressão do presidente em acelerar a economia. O resultado foi intensificar a notável campanha pública de Trump contra os testes, um exemplo vívido de como ele frequentemente declarava guerra à ciência, assim como aos especialistas de seu próprio governo e às políticas apresentadas.

- As declarações públicas bizarras de Trump, sua recusa em usar uma máscara e a pressão sobre os estados para que suas economias voltassem a funcionar deixaram os governadores e outras autoridades estaduais lutando para lidar com o vácuo de liderança.

- Somente no início de junho as autoridades da Casa Branca começaram a reconhecer que suas suposições em relação ao curso da pandemia haviam se provado erradas. Mesmo agora, existem divisões internas sobre até que ponto os funcionários devem reconhecer publicamente a realidade da situação.

Judd Deere, porta-voz da Casa Branca, disse que o presidente impôs restrições de viagem à China no início da pandemia, assinou medidas de alívio econômico que deram aos americanos assistência crítica e trataram de outras questões, incluindo suprimentos de equipamentos de proteção individual, realização de testes e desenvolvimento da vacina.

Em uma entrevista em 10 de abril, Trump previu que o número de mortes nos Estados Unidos devido à pandemia seria "substancialmente" inferior a 100.000. Até sábado, o número de mortos era de 139.186 e o ritmo de novas mortes estava subindo novamente. O país registrou em sete dias uma média de 65.790 novos casos por dia e teve mais casos confirmados per capita do que qualquer outra nação industrial importante.

A escolha de Trump

O presidente tinha uma decisão a tomar. Era o fim de março e seu esforço inicial de 15 dias para retardar a propagação do vírus, essencialmente paralisando o país, expiraria em dias.

Sentados no Salão Oval estavam Fauci e Deborah, junto com outros altos funcionários. Dias antes, Trump disse que imaginava que o país estaria "aberto e pronto para funcionar" até a Páscoa, mas agora ele estava prestes a anunciar que manteria o país fechado por mais 30 dias.

 

"Você realmente acha que precisamos fazer isso?", o presidente perguntou a Fauci. "Sim, realmente precisamos fazer isso", respondeu Fauci, explicando novamente o papel do governo federal em garantir que o vírus não explodisse por todo o país.

 

A disposição de Trump de aceitar [a resposta de Fauci] foi uma concessão de que a responsabilidade federal era crucial para derrotar um vírus que não respeitava as fronteiras estaduais.

Mas mesmo que o presidente reconhecesse a necessidade de decisões difíceis, ele e seus assessores logo procurariam fazer o oposto: construindo a imagem para a opinião pública de que o governo federal havia concluído seu trabalho e libertando o presidente do domínio da resposta [à pandemia].

Em meados de abril, Trump mostrou-se impaciente publicamente com as recomendações de ficar em casa que ele relutantemente endossou. Os pedidos de auxílio para desempregados deixavam claro que a economia estava em crise e as pesquisas mostravam seu apoio sangrento à campanha.

A questão era clara: por quanto tempo vamos continuar com isso? Para responder dúvida, eles se concentraram em mais duas perguntas: o vírus atingiu o pico? E, o governo deu aos estados as ferramentas necessárias para gerenciar os problemas restantes?

 

Para a primeira pergunta, Deborah estava otimista: a mitigação estava funcionando, mesmo que muitos especialistas externos avisassem que o país continuaria em grande risco se diminuísse o distanciamento social e avançasse prematuramente na reabertura.

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O grupo acreditava que também havia se saído bem quanto a segunda pergunta, embora a falta de equipamentos de proteção continuasse em alguns lugares (e voltaria a ocorrer meses depois). Uma escassez antecipada de mais de 100 mil ventiladores havia sido superada, agora havia excedente suficiente para que os Estados Unidos os emprestassem a outros países. A proibição de cirurgias eletivas significava que havia muito espaço para leitos.

Quanto aos testes, Trump deixou de enfatizar que o país já estava fazendo mais do que qualquer outro e passou a menosprezar sua importância. Em junho, o presidente fazia regularmente declarações sem sentido como: "Se pararmos de testar agora, teremos muitos poucos casos, se houver algum".

Em 10 de abril, Trump declarou que seria sua a decisão de reabrir o país.

Dias depois, Deborah e Fauci apresentaram a Trump um plano para emitir diretrizes para começar a reabrir o país no final do mês. Desenvolvidas em grande parte por Deborah, as orientações determinavam padrões amplos e voluntários para os estados ao considerar com que rapidez sairiam do lockdown.

Em termos políticos, a mensagem do documento era que a responsabilidade de lidar com a pandemia estava mudando de Trump para os estados.

Em 16 de abril, ele deixou explícita a mensagem aos governadores. "Vocês vão dar suas próprias ordens", disse ele. 

As consequências

Deborah reuniu uma equipe de analistas que fornecia a ela um fluxo constante de dados atualizados, organizados em slides de PowerPoint enviados por e-mail para altos funcionários todos os dias.

Mas havia avisos de que os modelos que ela estudou poderiam não ser precisos, especialmente na previsão do curso do vírus em um cenário de fatores políticos, econômicos e sociais em evolução. Entre os modelos em que Deborah mais se apoiava, havia um produzido por pesquisadores da Universidade de Washington.

Deborah recusou a solicitação de entrevista. Uma autoridade da força-tarefa disse que só usou o modelo da Universidade de Washington de maneira limitada e que a Casa Branca usou "dados reais, não dados modelados, para entender a pandemia nos Estados Unidos".

Mas, apesar das advertências e evidências externas, no início de maio, de que novas infecções permaneciam mais altas do que o previsto, a Casa Branca nunca reexaminou fundamentalmente o rumo estabelecido em meados de abril. Em vez disso, Deborah entregava regularmente o que a nova equipe esperava.

"Todos os dados estão se estabilizando", ela dizia, descrevendo o vírus como tendo atingido seu "pico" em meados de abril. A inclinação estava indo na direção certa. Ela endossou a ideia de que a contagem de mortes e os números de hospitalizações poderiam ser inflacionados.

As consequências no mundo real da abdicação de responsabilidade de Trump se espalharam por todo o país.

Durante uma entrevista em 20 de abril, Trump zombou do governador Larry Hogan, de Maryland, um colega republicano, pela incapacidade do estado de realizar testes suficientes. Deborah exibiu mapas com dezenas de pontos indicando laboratórios que poderiam ajudar.

Mas quando Frances Phillips, vice-secretária de saúde do estado, entrou em contato com um daqueles pontos - uma instituição do National Institutes of Health em Maryland - ela foi informada de que eles estavam sofrendo da mesma escassez dos laboratórios estaduais e não estavam em condições de ajudar.

"Ficou claro que estávamos sozinhos e precisamos desenvolver nossa própria estratégia, que é muito diferente do tipo de resposta federal nas emergências de saúde pública anteriores", lembrou Frances. No início de junho, estava claro que a Casa Branca havia entendido errado.

Investigando novos dados de Deborah, eles concluíram que o vírus estava se espalhando com ferocidade invisível durante as semanas de maio, enquanto os estados continuavam a reabertura com o incentivo de Trump e muitos estavam declarando vitória [sobre o vírus].

Com o benefício da análise retrospectiva, o chefe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês), Robert Redfield, reconheceu em uma conversa com o Journal of the American Medical Association que os funcionários do governo subestimaram severamente as infecções em abril e maio.

O número de novos casos aumentou agora muito acima do pico anterior, de mais de 36.000 por dia, em meados de abril. Na quinta-feira, houve mais de 75.000 novos casos confirmados, um recorde.

O desdém de Trump pelos testes continua a afetar o país. Em meados de junho, as filas se estendiam por quarteirões em Phoenix e em Austin, Texas. E o resultado deles pode levar de uma semana a dez dias, disseram autoridades do Texas - facilitando, efetivamente, que o vírus se espalhe de modo incontrolável.

Foi uma situação devastadora, disse o prefeito Steve Adler, de Austin, que viu os casos de covid-19 em unidades de terapia intensiva (UTIs) em hospitais da região saltarem de 3, em meados de maio, para 185, no início de julho. Adler fez um apelo simples à Casa Branca.

"Quando estávamos tentando fazer as pessoas usarem máscaras, elas apontavam para o presidente e diziam: 'Bem, não é algo que precisamos fazer'", disse ele.

O prefeito Francis Suarez, de Miami, republicano, expressou frustrações semelhantes com a abordagem desdenhosa de Trump ao uso de máscaras. "As pessoas seguem líderes", disse ele, antes de reformular suas observações. "As pessoas seguem as pessoas que deveriam ser líderes."/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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