REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

Pressão cresce no Haiti, em meio à falta de estrutura e aumento do número de mortos

Há quatro dias sem teto em regiões mais afetadas, desabrigados convivem com escassez de comida e água potável, além de chuvas provocadas por tempestade tropical

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 15h00

Há quatro dias sem teto e com acesso irregular a comida, água potável e medicamentos, sobreviventes do terremoto que sacudiu o Haiti no último sábado, 14, começam a perder a paciência com o governo, que não consegue dar resposta a milhares de pessoas que perderam suas casas e agora enfrentam uma tempestade tropical sem abrigo.

Entre a noite de terça e a madrugada de quarta-feira, 18, a tempestade tropical atrapalhava os esforços do governo para resgatar dezenas de milhares de pessoas. As fortes chuvas da terça-feira também prejudicaram os abrigos temporários montados desde o fim de semana, encharcando mesmo quem conseguiu algum tipo de teto - alguns dormiam ao ar livre.

As autoridades aumentaram o número de mortos para 1.941, na terça-feira, 17, embora esse número deva aumentar. Em L'Asile, no sudoeste do país, um hospital em um trecho remoto da zona rural da área ainda recebe pacientes com ferimentos do dia do terremoto, vindas de vilas isoladas.

De acordo com o diretor do hospital, Sonel Fevry, o acesso rodoviário às instalações no departamento de Nippes é difícil e nem todos conseguem chegar. A pobreza opressora, estradas ruins e crença em formas de medicina natural conspiram para piorar os problemas, segundo ele.

"Nós fazemos o que podemos, removemos o tecido necrosado e damos antibióticos a eles e tentamos conseguir uma tala", disse Fevry. A Agência de Proteção Civil do Haiti aumentou o número de feridos para 9.900, muitos dos quais tiveram que esperar por ajuda médica deitados do lado de fora de unidades de saúde.

A Unicef estima que o terremoto afetou cerca de 1,2 milhão de pessoas, incluindo 540 mil crianças. Escolas, pontes e instalações médicas desabaram. O representante da organização no Haiti, Bruno Maes, compartilhou um vídeo da cena, dizendo que "inúmeras famílias haitianas que perderam tudo devido ao terremoto estão agora vivendo literalmente com os pés na água devido às enchentes".

Logo após o terremoto, no sábado, o primeiro-ministro Ariel Henry visitou a cidade de Les Cayes, uma das mais violentamente atingidas pelo terremoto, prometendo uma resposta rápida. No entanto, a paciência parece estar se esgotando depois de seguidas noites dormidas na chuva, sem a ajuda esperada.

Pierre Cenel, um juiz local de Les Cayes, dirigiu sua ira ao governo de Porto Príncipe, ecoando a frustração borbulhante nas regiões mais atingidas. "Como juiz, não devo ter opinião política. Mas como homem, como homem preocupado com a situação do meu país, nada está dando certo. Eles não fizeram nada para se preparar para este desastre", disse Cenel.

Na cidade de tendas montada em Les Cayes, os moradores imploraram desesperadamente por ajuda. Os trabalhadores humanitários também alertaram sobre os riscos de doenças transmitidas pela água, como o cólera. "Precisamos de ajuda", disse o pastor Roosevelt Milford, falando no rádio em nome das centenas de pessoas que acampam em campos encharcados desde que o terremoto destruiu suas casas.

Moradores deslocados usam facões para raspar as pontas de postes de madeira a serem fixados no solo para sustentar suas barracas improvisadas na cidade provisória montada. Em um país com altos níveis de crimes violentos, os moradores montaram suas próprias equipes de segurança para vigiar à noite, com atenção especial à segurança de mulheres e meninas. 

O terremoto de sábado agravou os problemas no país mais pobre do hemisfério ocidental, que já luta contra um surto de coronavírus, violência de gangues e turbulência política após o assassinato do presidente Jovenel Moïse no mês passado. Após o desastre, o país ainda foi varrido pela tempestade tropical Grace.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse na terça-feira que as Nações Unidas reservaram US$ 8 milhões (o equivalente a R$ 42,72 milhões) em fundos de emergência para cuidados de saúde, água e abrigo no país, conclamando os países a intensificarem a ajuda externa para prevenir um "desastre humanitário"./ W.POST, AP e EFE

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