Martial Trezzini/EFE
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Pressão de Israel adia pacto iminente para que Irã desacelere plano atômico

Chanceleres das principais potências estão em Genebra para celebrar acordo, que liberaria negócios com petróleo entre iranianos e outros países

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

09 de novembro de 2013 | 00h43

GENEBRA - Os EUA admitiram ontem aliviar a pressão sobre nações que queiram importar petróleo do Irã para que um acordo sobre o programa nuclear de Teerã seja alcançado. A contrariedade de Israel foi decisiva para que um pacto - que incluiria uma pausa na construção de usinas atômicas por Teerã - não tivesse sido fechado ontem em Genebra.

À noite, o presidente americano, Barack Obama, tentou acalmar o premiê Binyamin Netanyahu, com garantias de segurança. Outras concessões estudadas pelas potências ocidentais são a liberação de US$ 3 bilhões em ativos iranianos bloqueados e a suspensão de embargos contra bancos do Irã.

A perspectiva de um acordo nuclear com o Irã levou os chefes da diplomacia mundial às pressas à Genebra, num sinal de que um entendimento estaria próximo. Além da pressão de Israel, a desconfiança de congressistas americanos forçou a Casa Branca a exigir novos compromissos e esclarecimentos por parte de Teerã e adiou um acerto para hoje.

O Estado apurou que, ontem, os governos fecharam um rascunho de um acordo nuclear entre as potências e o Irã, no que seria o primeiro entendimento escrito entre americanos e iranianos em mais de 30 anos. Um acordo definitivo poderia levar mais seis meses para ser negociado.

Na quinta-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, decidiu mudar sua agenda internacional e voar às pressas para Genebra. Sua atitude levou seus principais parceiros a tomar o mesmo caminho e, em poucas horas, a cidade recebia o francês Laurent Fabius, o britânico William Hague e o alemão Guido Westerweller. Hoje, o chanceler Sergei Lavrov chega a Genebra e será acompanhado por seu colega chinês.

Outro sinal de um acordo próximo foi o anúncio de que o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA),Yukiya Amano, viajará para Teerã na segunda-feira, num esforço da parte dos iranianos para demonstrar que estão dispostos a adotar medidas de transparência sobre suas instalações.

Na mesa, uma das propostas era a de permitir que o Irã tenha acesso a US$ 3 bilhões de um total de US$ 50 bilhões em ativos bloqueados em diferentes partes do mundo desde a Revolução de 1979.

Outro gesto considerado seria a suspensão da pressão sobre países que queiram comprar petróleo iraniano. A vantagem dessa medida seria a de que ela poderia ser facilmente revertida, caso Teerã dê sinais de que não está cumprindo sua parte do acordo.

Quatro anos atrás, a Petrobrás foi obrigada a abandonar seus projetos no Irã, justamente pela pressão dos americanos. O caso provocou mal-estar entre Brasília e Washington. A autorização para o comércio de metais seria ainda outra opção.

O vice-chanceler iraniano, Majid Takht-Ravanchi, confirmou o avanço. "O texto está pronto", indicou. Segundo ele, o rascunho inclui suspensão de sanções no setor de petróleo e financeiro.

O debate que se travava nas salas de negociação era sobre a capacidade de o Irã responder a essa proposta com ações concretas. A delegação iraniana insistiu que Teerã não abriria mão de preservar seu direito a enriquecer urânio como parte do acordo preliminar.

Obstáculo. O sinal de que as potências estavam dispostas a acatar essa condição do Irã foi o que levou Israel a sair ao ataque contra o projeto. Antes de chegar a Genebra, Kerry estava em Tel-Aviv e reuniu-se por duas horas com Netanyahu. Mas nem bem o americano havia embarcado, o israelense fez seu mais duro ataque até agora contra a Casa Branca e sua intenção de fechar um acordo com o Irã. "Não é um bom acordo", disse Netanyahu. "O Irã não precisará se desfazer de nada. Mas a comunidade internacional está aliviando pela primeira vez em anos sanções contra o Irã. Eu apelo ao secretário Kerry que não se apresse em assinar o acordo, que espere, que reconsidere para obter um acordo melhor", declarou.

O premiê "rejeitou" o acordo e deixou claro que Israel não tem nenhuma obrigação em cumpri-lo. "Faremos o que for necessário para defender nosso povo. O Irã conseguiu o acordo do século e a comunidade internacional fez um mau acordo", insistiu. "Isso é um sério erro. O Irã conseguiu tudo o que queria e não está pagando nada por isso porque não precisará reduzir em nada sua capacidade de enriquecimento", disse.

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